quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

MÃE

Quando olho em retrospetiva e penso no que sei de ti, mantenho-me na ignorância. Nunca te irei compreender completamente, porque não és um livro aberto, porque te escondes por trás de olhos que tanto já viram. O que mais me custa saber é que deverás ter centenas de histórias para sempre guardadas na tua memória. Coisas que provavelmente nunca me contarás. E isso, eu não entendo. Porque sempre fui de ouvidos abertos, ávida por saber mais de ti, te compreender, te amar! E talvez tenha amado, amor de infância, de inocência dos primeiros anos. 

Porém, cresci e cresço diariamente. E quanto mais vivo, menos te compreendo. À medida que me vou preparando para seguir alguns dos teus passos, penso em como serei diferente. Porque o meu amor irá sempre vazar para fora. Porque sei que tenho tanto para dar e partilhar, que nunca o emprisionarei como recluso do meu ser. O meu amor irá sentir-se no meu olhar, nos meus abraços, nas minhas palavras carinhosas. O meu sonho é partilhar esse amor, demonstrar que não sou só eu que sou importante, que os meus braços estarão sempre abertos e prontos a amar. Talvez também porque nunca me soubeste dar esse tipo de amor. O teu amor baseou-se em "respeito" pela criança que era e adulta que hoje sou. Não sei se compreendias bem sequer o que isso significava, mas sei que hoje me olhas um pouco mais de perto. Sei que tenho o teu respeito, que me vês crescer numa direção que te faz sentido. E também sei, que no fundo dos teus olhos e pensamento, tens orgulho na mulher que me tornei - mesmo que isso te seja tão difícil reconhecer em voz alta.

Eu compreendo-te e, ao mesmo tempo, compreendo cada vez menos, pai. Poderia ficar aqui e escrever livros e livros sobre como gostaria que tivesses sido para mim, mas hoje sei que fizeste o que podias, exatamente com o que achavas que eras capaz. Dá-me uma incrível sensação de pena saber que, com tudo o que conheço de ti, terias tanta mais capacidade para.

Mas eu perdoo-te. Se não perdoar, passarei uma vida em mágoas que já não merecem ocupar o meu coração. Eu serei diferente, pai. Serei a mãe que sempre quis ser e, pela primeira vez na vida, sinto que faz sentido o ser. 

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