A dor de não te conhecer, mas conhecendo-te há uma vida. Nunca saberei realmente como te caracterizar. Por vezes penso que sei o que pensas e, no momento seguinte, surpreendes o meu coração com um ataque direto. Tanto anos com uma dor insuportável, indescritível, imensurável.
Gostava tanto de te poder descrever doutra maneira. Como se os imensos pesadelos que me criaste não fossem reais. Mas eu não me posso iludir. Tenho que viver todos os dias com o peso que me carregaste às costas e na memória e não posso permitir-me ignorar isso. Foi com isso que cresci, que me tornei mulher e, acima de tudo, esta força de natureza que sei que sou, mas que por vezes escolho ignorar.
Ainda hoje consegues provocar-me dor. Quando achava que a tua mão não tinha mais poder, vejo-me lavada em lágrimas sobre a possibilidade de me vires a magoar - ainda que não fisicamente hoje em dia.
Como podes tu duvidar disto tudo? Depois de me veres sofrer, de me veres chorar como se mais nada me restasse? Duvidas do que criaste? Duvidas de todos os obstáculos que tive que enfrentar sozinha porque não estavas lá para me amparar? Como é que consegues desligar esse interruptor e ver apenas o bom do que de tanto também teve mau? Chorei tantas noites, em tantos sítios diferentes daquela casa... Agarrei-me a tanta almofada na esperança que ter um pouco do conforto que tanto ansiava. Duvidei de tantas ações minhas que hoje em dia sei serem apenas resultado de uma bagagem pesada.
Dói tanto mas tanto... não ser vista por ti. Não ser sentida ou fazer falta. Dói tanto mas tanto saber que tinhas todas as capacidades e habilidades para teres sido melhor, mas que não foste.
Eu respeito-te. Houve momentos em que esta afirmação me provocava escárnio, pelo raiva enterrada no meu ser. Mas hoje, curiosamente, não sobra tanto dessa raiva. Sobra tristeza, pelo homem que não foste na minha vida. Quem me dera ter tido o carinho que tanto ansiei nos anos em que precisava dele vindo de ti. Quem me dera poder reescrever as memórias de puro pânico espelhado nos meus olhos ou o isolamento que me provocavas. Como é que nunca soubeste? Como é que escolheste durante tantos anos não ver? E ainda hoje escolhes?
Eu sou humana. Eu sou pessoa, que merece afeto e respeito. EU sou tua filha. Mas penso que essa palavra para ti tem um significado muito diferente daquele que sempre lhe atribuí. Podíamos ter sido tanto. Mas hoje olho para trás com um sorriso triste. Recordo os poucos momentos em que a tua atenção e preocupação eram tudo o que fazia dos meus dias os melhores.
Ah, se dói. E provavelmente hei-de levar isto comigo a vida toda. Como uma aprendizagem. Hei-de ser a mãe que sempre abraçou, beijou e acarinhou os filhos. Haverei de criar memórias num domingo de manhã em casa, com nada para além de sonhos e sorrisos. Eu aprendi muito contigo, aprendi especialmente a dar valor ao que nunca tive. E, por isso, por um lado, obrigada pela tua presença.
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