O dia começa. O café saboreia-se nos meus lábios. Um brilhozinho de nostalgia brilha-me nos olhos. É tudo saudades. Saudades de uma outra realidade não tão distante. Como fundo tocam bandas desconhecidas em melodias acústicas. O dia começa com uma mistura improvável de tristeza e felicidade, agradecimento e arrependimento. Será que valerá a pena qualquer arrependimento? É-me perfeitamente sabido que fiz o que alguma vez poderia ter feito. A minha mente mantém-se tranquila, sabendo que os sentimentos que sinto por estas pessoas não poderiam ser mais puros. Eles são-me tudo, mesmo que eu não o diga vezes suficientes. A solidão que é inevitavelmente adjacente à sua ausência é quase mortífera. Mas aqui estou eu, a pensar novamente neles, tal como faço em todas as outras vinte vezes ao dia. Penso neles com um agradecimento imensurável. Que riqueza é ter tido a infância que tive. Não foi toda de felicidades, muitas amarguras se juntaram às memórias que mantenho. E, infelizmente, é verdade que as tristezas pesam mais que as jovialidades, perduram na memória com mais vivacidade. Só que dizer que as partes positivas não encadecem todas as outras é mentir com todas as palavras existentes.
Sinto saudades como quem não consegue obter ar suficiente. Os pulmões queimam, tal como queima a minha cabeça. No entanto, sei que eles lá estão. Bem, de saúde, nas suas discussões habituais de fim de semana, que vão e voltam. Quem diria que o meu amor cresceria tanto ao ponto de romper para fora do meu peito e viajar dois mil quilómetros, para outras terras, outras nações. Mas nada mudou. Eles são os mesmos e isso deixa-me um alívio profundo no meu ser. Não tenho dúvida que sempre lá estarão, unidos pelas memórias e pelo sangue que nos corre nas veias. Eles são únicos, ninguém os substituirá, nem hoje, nem nunca. Não consigo sequer conceber uma realidade em que o riso dela não exista. Não consigo imaginar um dia em que o esforço dele para ocultar um riso merecido não se assemelhe a um pato. Que loucura, o que eles se tornaram na minha vida. Loucura que no fundo não é loucura nenhuma. Estas pessoas são minhas, pertencem-me como eu me pertenço a mim. São a segurança que quero levar para o resto da minha vida. São as pessoas que quero nas minhas melhores recordações de vida. São as pessoas que quero apoiar na saúde e na doença. E, acima de tudo, são as pessoas que aceito com todos os seus defeitos. Talvez principalmente por causa dos seus defeitos, por as conhecer e saber com o que contar.
Hoje é uma daquelas manhãs em que um abraço apertado é devido. Hoje é um daqueles dias em que as nuvens lá fora estão escuras e o céu esconde-se. Os meus dedos estão gelados, não só do frio, mas da falta de aconchego também. A solidão é, sem dúvida, o pior dos venenos. E, por isso, num dia destes, fazem-me eles tanta falta. Sei que no final do dia irá existir uma lareira acesa que ilumina as suas caras na escuridão, as labaredas o candeeiro ideal por entre os brilhos da televisão. Mas não é da lareira que sinto falta, mesmo que seja um daqueles prazeres inexplicáveis. Essas caras, as suas expressões de felicidade e plenitude, são tudo o que me faz falta.
O dia começa cinzento. Mas a minha recordação traz-me cores de todo o tipo de tonalidades, que me aquecem a alma. Hoje está frio, mas eu nem preciso de casaco. Obrigada, pessoas minhas.
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