quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Devaneios deprimentes

Com certeza já ouviram falar da expressão "quem nunca pecou que atire a primeira pedra". Não é que eu seja cá muito de religiosidades ou devota a alguma crença específica, mas acho curioso como, se isto fosse dito no Facebook, apareciam vinte mil marmanjos em 0.25 segundos a desbaratar sobre como o próprio ato de atirar uma pedra já é pecar ou como todos eles são bons samaritanos.
Por trás de um teclado usado a dedos rápidos e do belo mundo virtual que espelha apenas o que queremos demonstrar, vivem todos os ogres e os maus da fita que se esconderam em embrenhadas histórias de contos de fadas, as quais já parecem verdadeiras aos mesmos. 
As nossas hoje queridas redes sociais tornaram-se em mentiras ambulantes que usamos para nos representar ao mais elevado nível de perfeição. Vamos ser honestos, esta expressão devia ser mudada para "quem nunca tirou 46.7 fotos ou adicionou efeitos antes de escolher a de perfil que atire o primeiro comentário depreciativo"!.
A meu ver há dois tipos de pessoas nas redes sociais: as espectadoras passivas e os comentadores agressivos. Ora, quando digo agressivos não falo em violência em si e sim na sua necessidade quase compulsiva de deixarem a sua marca em quase todos os perfis dos seus "amigos" facebookianos. As primeiras talvez sejam tão más quanto as segundas, o comentário depreciativo não fica publicado mas permanece gravado na memória para mais tarde usar se for necessário humilhação pública. Seremos sinceros agora também: nunca é, mas há pessoas que insistem em fazê-lo. Por outro lado, as segundas são ou muito chatas/repetitivas ou o teu Relações Públicas que precisa de manter a tua "imagem".
A coragem cresce quando a distância física aumenta. Verdade. No meu caso, isso resultou em conhecer alguém sem ter medo de ser eu. No entanto, não podia deixar de ter conhecido o lado mau também, os ditos corajosos que pessoalmente passavam despercebidos se lhes passasse ao lado na rua. Porém, aqui em pleno mundo virtual, fazem-se de meninos crescidos que exigem tudo e mais alguma coisa de alguém que não conhecem. 
Ensinamos desde sempre às crianças que mentir é feio. Ensinamos também que não faz mal ter um smartphone aos dez anos de idade, mas que não podem ter perfis verdadeiros nas redes sociais. A mim parece-me contraditório... Serei a única a achar isso?

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Um adeus doloroso...

Sabe uma coisa, D. Zaira? Nunca pensei ver a chegar este dia. Na minha cabeça, quando ouvisse falar da sua inexistência, estaria casada, com muitos filhos e iria, com pesar, dizer as minhas últimas palavras como pessoa que a adorava. Iria criar os meus filhos baseada em si e no seu tratamento comigo. Iria ensiná-los como me ensinou a mim os valores da vida.
Cresci, algumas pessoas passaram a memórias que esmorecem com o tempo. Mas, em si D. Zaira, pensava com frequência. Em como cuidara de mim, na saúde e na doença com tanto amor. Foi uma segunda mãe durante esse tempo todo em que fiquei em seus cuidados. É verdade que a minha paixão por gomas começou consigo (mesmo que o diga com pena hoje), mas ensinou-me a amar a sua comida caseira com muito mais força. Ainda hoje, se fechar os olhos, vejo a sua casa. As pessoas que nela estavam todos os dias, a hora de almoço com mesa cheia, os passeios, o café do bairro e as crianças que passavam pelas suas mãos. Lembro-me, com carinho, como conheci quase os Marrazes inteiros só por passeios consigo, era rara a vez em que não fossemos a pé a algum lugar, só porque podíamos, só porque a senhora amava o seu bairro e as pessoas nele como a amavam a si por igual. 
Hoje, choro, não só por não poder dizer adeus, mas também por ser cobarde - não quis vê-la dessa maneira, não quis quebrar-me em choro à sua frente, ao ver como poderia estar mudada, não quis ver a sua sempre cara sorridente em sofrimento. Sabe porquê, D. Zaira? Porque para mim foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Guardo com carinho todas as memórias, todos os cheiros deliciosos dentro da sua cozinha, todos os passeios, todas as conversas cheias de conselhos e, principalmente, todo o amor que me deu. Tratou-me como mais uma filha, da mesma maneira que todos os outros seus "filhos". Não me posso despedir, nem dizer um adeus, mas hoje estou aqui, de coração aberto e apertado para lhe dizer que espero que agora esteja melhor, que tenha a paz e o conforto com que sempre nos fez sentir, que tenha todo o amor e aconchego que nos deu sempre. Sei que vai estar a olhar cá para baixo, sempre de olho em nós. Obrigada não chega nem que vivesse cem vezes, D. Zaira.
Com amor, Catarina.

domingo, 17 de abril de 2016

Pânico

Falhei novamente um dia. De propósito porque isto me torna incapaz de manter os olhos abertos durante a leitura da sebenta que tenho à minha frente. Eu sabia das consequências, sei sempre, mas penso: hoje estou em casa, fechada, não há stressores à minha volta. Estúpida, chamo-me a mim própria. É logo o meu primeiro pensamento. O segundo, a dúvida -  de quem sou, do que quero, se sou boa o suficiente para manter esta farsa à frente de tantos olhos que me vigiam dia sim, dia sim. 
A última fase tira-me tudo. Olho-me ao espelho, vejo um corpo demasiado cheio, deformado, marcado pelas memórias, vejo nojo no meu rosto, pernas muito gordas, barriga muito grande, rabo muito pequeno, cabelo seco, olheiras, lábios finos, acne, dedos e costas tortas... vejo uma mentira. Todos os dias me digo que sou bonita, mas quando o meu comprimido não me eleva ao rosto um sorriso e um humor agradável, eu perco-me. Perco tudo, perco a razão. Mais uma vez falhei. Maldita cabeça, porque pensas que aguentas neste momento de fraqueza? Principalmente, perco a minha noção de que sou uma jovem de quase 20 anos, atrativa a outras pessoas como eu me atraio também. Passo a ser um bicho de sete cabeças que se esconde num quarto escuro o dia todo. Hoje, perdi tudo. Amanhã, é um novo dia. Nota para mim mesma: deixa-te de merdas e toma sempre o comprimido.

domingo, 10 de abril de 2016

Fase de Teste

Finalmente cheguei a este ponto. Não é um sonho de menina vir mais tarde a precisar de comprimidos para passar outro dia. Se há um dia que falhe, a minha mente vira um turbilhão, os pensamentos sufocam-me e os meus pulmões desistem de respirar, tentando tirar de mim a pouca consciência que já tenho. Abstenho-me de pensar no assunto, porque é algo que me deixa acordada de noite, se não fosse o sono induzido pela droga que me corre nas veias.
Mais um dia, nota para mim própria: não te esqueças do comprimido, que é feito de ti sem ele?
Com ele, rio, genuinamente. Também não sinto o peso, quase como cimento, no peito. 3 malditos anos em que me senti pesada, sufocada, à beira de lágrimas em qualquer que fosse o momento: podia estar apenas a andar na rua, escorriam-me as lágrimas pelos olhos, os pensamentos viam e lá me refugiava num canto escuro, longe dos olhares penosos, longe daqueles que acham que ajudam mas só me cicatrizam mais a alma. 
Começaram de novo, esses malditos ataques. É a palavra certa chamá-los de ataques, porque quando mal esperas, silenciosamente apoderam-se de todo o teu corpo e já não sabes quem és. As mãos começam a suar, o leve tremer dos membros passa a um quase síndrome de Parkinson e o peito sem aviso explode, ou melhor, implode, sugando o ar dos teus pulmões como um buraco negro que te suga a vida.
E isto tudo porquê? Porque, apesar de todos estes anos guardar tudo o que não devia comigo mesma, há 3 anos atrás, o mundo estagnou para mim. Pedem-me inúmeras vezes para explicar e não consigo. Pedem-me para controlar o pânico e não consigo. Não é um interruptor que liga e desliga quando eu quero! Devo ter suplicado em todos estes 1092 dias (mais coisa menos coisa) para que isso fosse verdade, mas não é. 
Quem diz que eu sou a rapariga calada, sem nada a dizer, de baixa autoestima e que não acrescenta nada ao grupo, não me conheceu de verdade. Aliás, não me conhece de todo. Porque eu, tenho mais a dizer que muitos de vocês, tenho muita coisa enfiada dentro do meu coração que se remete a uma grande caixa de pandora que, até agora, não sei abrir sem me desfazer em lágrimas.
O médico, ainda não sei bem se com razão, prescreveu-me as caixas. Olhei para elas, já em casa, sentada na cama, com um pesar de consciência. "E se eu for aquele robot que se espera que seja com isto? Sem alma, sem sentimentos, sem a minha essência, eu?".
Porém, apesar de tudo, aqui estou eu, de sorriso no rosto, de autoestima elevada, de corpo e espíritos leves e à espera de todas as boas coisas na vida que mereço. Portanto, obrigada por esta nova oportunidade... Mais um passo para eu ser a Catarina poderosa que sempre vi em mim mas tinha medo de trazer cá para fora. Simplesmente, obrigada...


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Emagrecer rápido?

Das coisas que mais vejo na internet ou televisão, o que realmente se destaca é a expressão "perder peso". 
Vivemos nesta cultura obcecada por perder peso de maneira fácil: seja com comprimidos, receitas milagrosas ou abster-se de comida. 
Durante algum tempo, lutei com o meu excesso de peso. Muita gente olha para mim hoje e diz que não, que devo estar a gozar, que sou outra daquelas que se achava gorda quando nunca o experienciou de verdade.
Pois bem, vou-vos contar como eu o vivi quando era pequena.
Quando tinha 4 ou 5 anos, era muito magra. E a verdade é que na cultura portuguesa, "quer-se é alguém cheiinho". Com esta filosofia, a minha mãe dirigiu-se à farmácia e comprou-me um daqueles xaropes com uma caixa toda colorida para me aumentar o apetite. Eu recusava-me a tomar aquilo, tinha um sabor estranho, uma cor ainda mais desagradável, mas ela lá me convenceu que era bom para a minha saúde ser mais gordinha (coisa que eu sei hoje não ser bem verdade).
Seu dito, seu feito. Lá engordei eu rapidamente, o meu apetite subiu em flecha e comia cada vez mais avidamente o que me fosse colocado à frente.
Infelizmente, o aumento de peso foi um pouco superior ao esperado, cheguei à idade de 9 anos com a alcunha de "cara de bolacha". Todos os meus familiares distantes brincavam com o facto de a minha barriga se assemelhar à de um velho adepto de futebol e cerveja. Na minha turma, era a segunda mais pesada.
Com o passar dos anos, sempre me achei gorda. Realmente toda a gente à minha volta o dizia! Em educação física, era das pessoas mais lentas, não tinha resistência absolutamente nenhuma e era, preferencialmente, a última a ser escolhida para as equipas, que me colocavam quase sempre à baliza fosse qual fosse o desporto.
A coisa foi melhorando quando dei o meu salto em estatura. Já só se notava um pouco de barriguinha debaixo das camisolas, mas as coxas continuavam como presuntos para venda. Chegou uma altura em que me recusava a comer. Já era tão gorda, para quê comida não é? Então a minha mãe tentou arranjar maneira de me fazer meter algo no estômago: começou a comprar todo o tipo de comida processada que não me alimentasse só a boca como os olhos. Voltei a aumentar de peso. Nessa altura, os miúdos metiam-me de parte, nas suas brincadeiras de namoro recusavam a incluir-me, eu não era vista como bonita ou minimamente atraente.
Então, num dia de verão, após um daqueles almoços monstruosos a que estava habituada, uma dor horrível trespassou-me, começando no umbigo e irradiando para o lado direito e inferior do meu abdómen.
Esta dor continuou o dia todo e consecutivamente à noite, pois os meus pais acreditavam ser outra das minhas fitas. Mas quando os vómitos não paravam nem com água e as lágrimas já não conseguiam evitar correrem pelas bochechas abaixo, fui levada logo na manhã seguinte à urgência do hospital. Para os profissionais de saúde, era claro: apendicite. Diziam-me que provavelmente a falta de beber água ou a minha alimentação deficiente o teriam provocado. Fui operada nessa tarde, para meu grande pavor.
Depois da operação, explicaram-me tudo. Tinha chegado às urgências já com o apêndice rebentado e uma hemorragia ainda grande. Era passível de ficar mais tempo no hospital do que o normal. E assim foi: uma rapariga que chegou depois de mim, foi embora antes. E eu lá permanecia, para minha vergonha.
Com isto, perdi muito peso. Não comendo durante 5 dias, perdi sete quilos. Com o corpo tão desnutrido, pareciam muitos mais.
Lembro-me de chegar a casa e pensar: mas onde está o meu rabo?!
Na escola, já não era gozada. Toda a gente passou a invejar o meu corpo sem carne. Sonhavam ser como eu! Atiravam-me à cara a sorte que tinha...
A partir daí, os meus problemas de hipertiroidismo começaram a notar-se. O meu corpo queria doces, mas os doces não me faziam engordar! Comia, comia imenso e nada me enchia o espaço entre a pele e o osso. No liceu, adorava exercício físico, mesmo que por vezes me sentisse mal e com vontade de desmaiar.
Só quando cheguei à faculdade é que me senti finalmente mais calma. Comecei até de facto a cozinhar por mim própria e os quilos foram-se acumulando. Nunca deixei que evoluísse para além do saudável. Assim que me sentisse mais cheiinha, começava a treinar, beber mais líquidos e cortava nas porcarias.
Hoje sinto-me bem. O meu corpo sentiu tantas diferenças ao longo do tempo que já não é o mesmo, mas eu sei que não há emagreceres fáceis. Comigo, o meu emagrecer significou dor, sofrimento.
E, na verdade, é assim para toda a gente, seja por cortar nas coisas que gostam ou exercitar o corpo até atingir o padrão de beleza que esperam.
Acordem.. e saiam de casa em vez de procurarem soluções rápidas online. Ouvi de tudo, desde gengibre, a um copo de água com gotas de limão ao acordar. Isso não muda muito se continuarem a comer mal, de rabo alçado no sofá, não acham?
A solução? Encontrem a motivação de que precisem e metam mãos à obra.
Boa sorte!