Falhei novamente um dia. De propósito porque isto me torna incapaz de manter os olhos abertos durante a leitura da sebenta que tenho à minha frente. Eu sabia das consequências, sei sempre, mas penso: hoje estou em casa, fechada, não há stressores à minha volta. Estúpida, chamo-me a mim própria. É logo o meu primeiro pensamento. O segundo, a dúvida - de quem sou, do que quero, se sou boa o suficiente para manter esta farsa à frente de tantos olhos que me vigiam dia sim, dia sim.
A última fase tira-me tudo. Olho-me ao espelho, vejo um corpo demasiado cheio, deformado, marcado pelas memórias, vejo nojo no meu rosto, pernas muito gordas, barriga muito grande, rabo muito pequeno, cabelo seco, olheiras, lábios finos, acne, dedos e costas tortas... vejo uma mentira. Todos os dias me digo que sou bonita, mas quando o meu comprimido não me eleva ao rosto um sorriso e um humor agradável, eu perco-me. Perco tudo, perco a razão. Mais uma vez falhei. Maldita cabeça, porque pensas que aguentas neste momento de fraqueza? Principalmente, perco a minha noção de que sou uma jovem de quase 20 anos, atrativa a outras pessoas como eu me atraio também. Passo a ser um bicho de sete cabeças que se esconde num quarto escuro o dia todo. Hoje, perdi tudo. Amanhã, é um novo dia. Nota para mim mesma: deixa-te de merdas e toma sempre o comprimido.
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