Sentada à secretária, com as teclas do computador a roçarem os meus dedos trémulos, escrevo. Quero conseguir abrir-me com o mundo sem mais medos. Quero explicar que sou vítima do mundo e, ao mesmo tempo, nunca o fui. Como tudo se torna um problema ou a vida não vale a pena ser vivida de simplicidades. Tudo tem que ser resolvido e trabalhado com suor, lágrimas e sangue. Que prazer traz a felicidade que é fácil de atingir? Aquela que nos apareceu nas mãos sem termos que mexer um dedo? Sejamos sinceros, dá muito mais gozo matarmo-nos pelas coisas que as encontrarmos no nosso colo.
Hoje, sou adulta. Não queria, nem nunca me imaginei nesta posição. Em criança, fantasiava com uma mulher de 23 anos com todo o poder imaginável dentro das suas mãos, com as certezas e confiança que um mulher de negócios, de fato e gravata possui. Mas não sou assim... pelo menos não hoje.
Tudo o que posso confirmar é que sinto o peso de 23 anos de falta de descanso no corpo. E, ainda assim, quem sou eu para o dizer? Se me comparar a tantas outras pessoas, a minha vida é fácil. Eu tenho um teto bom por cima da minha cabeça. Cozinho a minha comida, à qual gosto de chamar saudável, que coloco no meu prato todos os dias. Conduzo um carro, o meu "boguinhas", com um imensurável prazer todas as manhãs. Muitas destas coisas não me custaram a "arranjar". Isto porque tenho pais que me sabem amar com coisas. E, não me levem a mal, de crítica isto não tem nada. Agradeço o amor deles, seja da maneira que for. E, por isto, tenho de falar do meu pai.
O meu pai, aquela figura de frieza e distância, não sabe amar. Mas ele sabe "dar". Não quando quero, mas quando ele quer. Ele dá um carro. Ele dá uma casa. Ele dá um depósito de combustível cheio quando menos espero. Ele dá tudo, menos amor. Com isto, quero dizer que ele sabe demonstrar afetividade, mas infelizmente apenas com objetos. Ainda hoje, não sei o que ele alguma vez sentiu por mim, porque nunca mo disse. A minha mãe leva-me a crer que é amor com os seus longos discursos de "ele é um bom pai, só não sabe dizer-vos" que me levam a uma maior incredulidade. Mas não é verdade que amor se expressa com palavras, gestos de proximidade e, acima de tudo, com tempo? O meu pai dá muita coisa, mas ele não dá amor ou tempo. Ele aprendeu a expressar-se com esgares de raiva, palavras frias e cortantes, ameaças e olhares vazios. Com o passar dos anos, ele aprendeu a desligar-se também. Cruelmente, durante alguns anos chamei-lhe "banco andante". Porque quando precisava de dinheiro, ele estava lá. Hoje, condeno-me por isto, porque sei finalmente o valor do dinheiro que se trabalhou para receber. Porém, quando precisei de palavras amigas, recebi silêncios desconfortáveis. Se soubesses, pai, o quanto eu teria substituído uma coisa pela outra, talvez tivesses sido diferente. Mas, talvez, não tivesses na mesma. Porque tu não sabes amar.
Recentemente, decidi perdoar-te. Culpei-te durante tantos anos pela minha dificuldade em expressar-me, pelo meu medo de viver com os outros e por ser quem sou, porque essa pessoa nunca seria aceite no mundo, se o meu próprio pai me dizia que eu não era suficiente. Hoje sei que tentaste. Tentaste motivar-me a procurar mais do que a mim mesma, ainda que não soubesses o que estavas a fazer, de todo, admito. Porque não sabias amar, não me ensinaste também, nem a amar a mim própria. Mas eu perdoei-te do passado. Era o mínimo que podia fazer, porque por tua causa, nunca me faltou nada de que realmente precisasse. Tu certificaste-te de que eu seria alguém neste mundo e deste-me de tudo para que eu ambicionasse mais do que tu fizeste na tua juventude. E, por isso, só posso estar imensamente agradecida.
No entanto pai, tu pecas. Eu não te consigo perdoar do presente. Porque, sabendo perfeitamente o quão grande é esse cérebro, fico desiludida que não tenhas aprendido com 22 anos de erros. E hoje, consigo também admitir, que apesar de saber amar, não consigo fazê-lo por ti. Porque para amar, tenho que saber aceitar os teus erros e viver com eles. E, por mais que tenha tentado, resultando em tantas noites de choro inconsolável e um sentimento de desespero, não consigo.
Não te odeio, não tenho motivos para tal. Só que, pai, não consigo gostar de ti. E é com lágrima no olho que digo isto. Porque o meu sonho de voar é para voar para longe de ti. Eu sou uma nómada, porque a nossa casa nunca foi um lar e ainda não encontrei o meu neste mundo. A vivenda foi um livro de memórias intragáveis - as escadas onde tantas vezes ouvi as vossas discussões no escuro; debaixo da vossa cama, onde tantas vezes me escondi; a parte de trás da casa, onde desabafei todos os dias com as plantas e com um rosto embebido em lágrimas; a cama onde passei tantas noites em claro e tantos dias sem comer.
Eu perdoei-te, mas como é que mantenho tantas destas imagens na minha cabeça? Desculpa pai, quero ser melhor.
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