segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Quero ser melhor

Sentada à secretária, com as teclas do computador a roçarem os meus dedos trémulos, escrevo. Quero conseguir abrir-me com o mundo sem mais medos. Quero explicar que sou vítima do mundo e, ao mesmo tempo, nunca o fui. Como tudo se torna um problema ou a vida não vale a pena ser vivida de simplicidades. Tudo tem que ser resolvido e trabalhado com suor, lágrimas e sangue. Que prazer traz a felicidade que é fácil de atingir? Aquela que nos apareceu nas mãos sem termos que mexer um dedo? Sejamos sinceros, dá muito mais gozo matarmo-nos pelas coisas que as encontrarmos no nosso colo. 
Hoje, sou adulta. Não queria, nem nunca me imaginei nesta posição. Em criança, fantasiava com uma mulher de 23 anos com todo o poder imaginável dentro das suas mãos, com as certezas e confiança que um mulher de negócios, de fato e gravata possui. Mas não sou assim... pelo menos não hoje. 
Tudo o que posso confirmar é que sinto o peso de 23 anos de falta de descanso no corpo. E, ainda assim, quem sou eu para o dizer? Se me comparar a tantas outras pessoas, a minha vida é fácil. Eu tenho um teto bom por cima da minha cabeça. Cozinho a minha comida, à qual gosto de chamar saudável, que coloco no meu prato todos os dias. Conduzo um carro, o meu "boguinhas", com um imensurável prazer todas as manhãs. Muitas destas coisas não me custaram a "arranjar". Isto porque tenho pais que me sabem amar com coisas. E, não me levem a mal, de crítica isto não tem nada. Agradeço o amor deles, seja da maneira que for. E, por isto, tenho de falar do meu pai.
O meu pai, aquela figura de frieza e distância, não sabe amar. Mas ele sabe "dar". Não quando quero, mas quando ele quer. Ele dá um carro. Ele dá uma casa. Ele dá um depósito de combustível cheio quando menos espero. Ele dá tudo, menos amor. Com isto, quero dizer que ele sabe demonstrar afetividade, mas infelizmente apenas com objetos. Ainda hoje, não sei o que ele alguma vez sentiu por mim, porque nunca mo disse. A minha mãe leva-me a crer que é amor com os seus longos discursos de "ele é um bom pai, só não sabe dizer-vos" que me levam a uma maior incredulidade. Mas não é verdade que amor se expressa com palavras, gestos de proximidade e, acima de tudo, com tempo? O meu pai dá muita coisa, mas ele não dá amor ou tempo. Ele aprendeu a expressar-se com esgares de raiva, palavras frias e cortantes, ameaças e olhares vazios. Com o passar dos anos, ele aprendeu a desligar-se também. Cruelmente, durante alguns anos chamei-lhe "banco andante". Porque quando precisava de dinheiro, ele estava lá. Hoje, condeno-me por isto, porque sei finalmente o valor do dinheiro que se trabalhou para receber. Porém, quando precisei de palavras amigas, recebi silêncios desconfortáveis. Se soubesses, pai, o quanto eu teria substituído uma coisa pela outra, talvez tivesses sido diferente. Mas, talvez, não tivesses na mesma. Porque tu não sabes amar.
Recentemente, decidi perdoar-te. Culpei-te durante tantos anos pela minha dificuldade em expressar-me, pelo meu medo de viver com os outros e por ser quem sou, porque essa pessoa nunca seria aceite no mundo, se o meu próprio pai me dizia que eu não era suficiente. Hoje sei que tentaste. Tentaste motivar-me a procurar mais do que a mim mesma, ainda que não soubesses o que estavas a fazer, de todo, admito. Porque não sabias amar, não me ensinaste também, nem a amar a mim própria. Mas eu perdoei-te do passado. Era o mínimo que podia fazer, porque por tua causa, nunca me faltou nada de que realmente precisasse. Tu certificaste-te de que eu seria alguém neste mundo e deste-me de tudo para que eu ambicionasse mais do que tu fizeste na tua juventude. E, por isso, só posso estar imensamente agradecida. 
No entanto pai, tu pecas. Eu não te consigo perdoar do presente. Porque, sabendo perfeitamente o quão grande é esse cérebro, fico desiludida que não tenhas aprendido com 22 anos de erros. E hoje, consigo também admitir, que apesar de saber amar, não consigo fazê-lo por ti. Porque para amar, tenho que saber aceitar os teus erros e viver com eles. E, por mais que tenha tentado, resultando em tantas noites de choro inconsolável e um sentimento de desespero, não consigo. 
Não te odeio, não tenho motivos para tal. Só que, pai, não consigo gostar de ti. E é com lágrima no olho que digo isto. Porque o meu sonho de voar é para voar para longe de ti. Eu sou uma nómada, porque a nossa casa nunca foi um lar e ainda não encontrei o meu neste mundo. A vivenda foi um livro de memórias intragáveis - as escadas onde tantas vezes ouvi as vossas discussões no escuro; debaixo da vossa cama, onde tantas vezes me escondi; a parte de trás da casa, onde desabafei todos os dias com as plantas e com um rosto embebido em lágrimas; a cama onde passei tantas noites em claro e tantos dias sem comer. 
Eu perdoei-te, mas como é que mantenho tantas destas imagens na minha cabeça? Desculpa pai, quero ser melhor. 

sábado, 8 de setembro de 2018

Aos 22!

Um ano mais velha. Mais um ano de pensamentos confusos, contactos frequentes com a malícia deste mundo e desilusões infinitas. Sinto-me tão estranha. Quem sou eu? Achei que ao meu vigésimo segundo aniversário saberia todas as respostas à definição do meu eu. Mas pelos visto ser adulto não significa ter respostas, significa ter cada vez mais perguntas, que são cada vez mais amplas e difíceis de responder. Tenho mesmo certeza do que quero? Sei o que estou a fazer? As pessoas vêem-me da mesma maneira que me vejo a mim? Parece que voltei a ter 15 anos e um turbilhão de hormonas. Mentiram-nos tanto quando disseram que crescer era divertido! Ou talvez nos tenham avisado e nós não soubemos ler nas entrelinhas.  
Não tenho tempo para nada, apesar de tempo não me faltar. Tenho energia mas só de vez em quando e alimentada a três cafés. Sou confiante mas faltam-me as palavras certas na ponta da língua quando falo com pessoas orgulhosas. Sou criativa e não consigo planear as férias ideais para os únicos quatro dias que tenho para usufruir. Não tenho um tostão no bolso mas são imensos os pensamentos de comprar o mundo com o meu primeiro salário. 
É isto que significa ser adulta? Porque sinto que estou dentro de um barco sem motor, em que tenho que remar para um sentido que me pareça apropriado, sem saber para onde vai a corrente. 
E é suposto eu saber o que quero para mim agora? Os meus pais casaram-se quando a minha mãe vivia a tenra idade dos 23. Eu tenho 22... Isso significa que é a um ano de distância! Só mais um ano do tempo que me passa por entre os dedos nos últimos tempos... Eu? Que sou ainda uma miúda com medo de não fazer bem as coisas à primeira? Que arranha nas coisas de contratos de trabalho e o mundo das finanças visto a recibos verdes? Eu não sei nada de nada! Como esperam que saiba organizar um casamento para o ano? Nem sei o que é suposto organizar!!!
São estes os pensamentos confusos que os vinte e dois me trouxeram. Tenho um espírito de uma criança de 5 anos presa dentro de um corpo de 15 que possui um cartão de cidadão que constata 22. Como assim 22??

domingo, 29 de abril de 2018

Duas esferas isoladas

Dou-te a minha mão. Não me custa estender um simples membro quando precisas tu mais dele. Mas tu enxotas a minha ajuda, acreditando que de nada vale. Aí, caio eu e tu, caímos as duas na mesma escuridão. 
Como podes achar que sofres sozinha? Que idiotice. Como se me nada significasses, como assim? E isto deixa-me furiosa, possessa, contra o mundo! Quem te fez acreditar que o teu sofrimento era só teu? Que estás sozinha e essas lágrimas são silenciosas? Elas gritam mais alto do que alguma vez sei que o farás. Elas chamam-me de outra cidade, numa demanda de te arrancar um sorriso perdido. Não compreendes? Que eu e tu somos da mesma carne, somos da mesma origem, somos nós duas. 
Eu estou aqui... agarra na minha mão, por favor. Agarra-te à minha felicidade, eu dou-ta. Fico eu com as tuas lágrimas, não me importo, troca por troca e fico eu infeliz. Ainda não compreendes? Que te vejo acima de mim? Que te quero melhor que eu? 
Anos e anos que passaram no mesmo esquema, eu aqui sem poder fazer nada e tu aí sem nada a que te agarrares. Como me sinto impotente e miserável ao deixar que o tempo passe sem conseguir mudar nada. Olha para mim, para os meus olhos, vês como choram? Como pousam no vazio e olham durante tempos infinitos? Esse sofrimento já é meu. Por mais que fuja, não consigo escapar a isto. Porque somos nós as duas, eu e tu, e mais ninguém. Se fosse outra, eu renunciava à responsabilidade e escondia a culpa. Mas aqui? Connosco? Não consigo. Sou eu e tu contra o resto, mas tu não me deixas entrar e lutar contigo. Ajuda-me a ajudar-te a carregar esse peso todo, porque com duas fica mais leve. Eu gosto tanto, mas tanto de ti. Por favor.