domingo, 17 de abril de 2016

Pânico

Falhei novamente um dia. De propósito porque isto me torna incapaz de manter os olhos abertos durante a leitura da sebenta que tenho à minha frente. Eu sabia das consequências, sei sempre, mas penso: hoje estou em casa, fechada, não há stressores à minha volta. Estúpida, chamo-me a mim própria. É logo o meu primeiro pensamento. O segundo, a dúvida -  de quem sou, do que quero, se sou boa o suficiente para manter esta farsa à frente de tantos olhos que me vigiam dia sim, dia sim. 
A última fase tira-me tudo. Olho-me ao espelho, vejo um corpo demasiado cheio, deformado, marcado pelas memórias, vejo nojo no meu rosto, pernas muito gordas, barriga muito grande, rabo muito pequeno, cabelo seco, olheiras, lábios finos, acne, dedos e costas tortas... vejo uma mentira. Todos os dias me digo que sou bonita, mas quando o meu comprimido não me eleva ao rosto um sorriso e um humor agradável, eu perco-me. Perco tudo, perco a razão. Mais uma vez falhei. Maldita cabeça, porque pensas que aguentas neste momento de fraqueza? Principalmente, perco a minha noção de que sou uma jovem de quase 20 anos, atrativa a outras pessoas como eu me atraio também. Passo a ser um bicho de sete cabeças que se esconde num quarto escuro o dia todo. Hoje, perdi tudo. Amanhã, é um novo dia. Nota para mim mesma: deixa-te de merdas e toma sempre o comprimido.

domingo, 10 de abril de 2016

Fase de Teste

Finalmente cheguei a este ponto. Não é um sonho de menina vir mais tarde a precisar de comprimidos para passar outro dia. Se há um dia que falhe, a minha mente vira um turbilhão, os pensamentos sufocam-me e os meus pulmões desistem de respirar, tentando tirar de mim a pouca consciência que já tenho. Abstenho-me de pensar no assunto, porque é algo que me deixa acordada de noite, se não fosse o sono induzido pela droga que me corre nas veias.
Mais um dia, nota para mim própria: não te esqueças do comprimido, que é feito de ti sem ele?
Com ele, rio, genuinamente. Também não sinto o peso, quase como cimento, no peito. 3 malditos anos em que me senti pesada, sufocada, à beira de lágrimas em qualquer que fosse o momento: podia estar apenas a andar na rua, escorriam-me as lágrimas pelos olhos, os pensamentos viam e lá me refugiava num canto escuro, longe dos olhares penosos, longe daqueles que acham que ajudam mas só me cicatrizam mais a alma. 
Começaram de novo, esses malditos ataques. É a palavra certa chamá-los de ataques, porque quando mal esperas, silenciosamente apoderam-se de todo o teu corpo e já não sabes quem és. As mãos começam a suar, o leve tremer dos membros passa a um quase síndrome de Parkinson e o peito sem aviso explode, ou melhor, implode, sugando o ar dos teus pulmões como um buraco negro que te suga a vida.
E isto tudo porquê? Porque, apesar de todos estes anos guardar tudo o que não devia comigo mesma, há 3 anos atrás, o mundo estagnou para mim. Pedem-me inúmeras vezes para explicar e não consigo. Pedem-me para controlar o pânico e não consigo. Não é um interruptor que liga e desliga quando eu quero! Devo ter suplicado em todos estes 1092 dias (mais coisa menos coisa) para que isso fosse verdade, mas não é. 
Quem diz que eu sou a rapariga calada, sem nada a dizer, de baixa autoestima e que não acrescenta nada ao grupo, não me conheceu de verdade. Aliás, não me conhece de todo. Porque eu, tenho mais a dizer que muitos de vocês, tenho muita coisa enfiada dentro do meu coração que se remete a uma grande caixa de pandora que, até agora, não sei abrir sem me desfazer em lágrimas.
O médico, ainda não sei bem se com razão, prescreveu-me as caixas. Olhei para elas, já em casa, sentada na cama, com um pesar de consciência. "E se eu for aquele robot que se espera que seja com isto? Sem alma, sem sentimentos, sem a minha essência, eu?".
Porém, apesar de tudo, aqui estou eu, de sorriso no rosto, de autoestima elevada, de corpo e espíritos leves e à espera de todas as boas coisas na vida que mereço. Portanto, obrigada por esta nova oportunidade... Mais um passo para eu ser a Catarina poderosa que sempre vi em mim mas tinha medo de trazer cá para fora. Simplesmente, obrigada...