sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lisboa menina e moça

Aprendi a viver com a solidão como um cão pontapeado. Não foi por escolha, mas cá me habituei. A solidão não é o simples processo de afastar as pessoas à nossa volta. É tão mais ou, se não, diferente disso. Aprendi a fazer tudo duma maneira autónoma e automática. Há coisas que ainda me transcendem, mas viver sozinha não é o bicho de sete cabeças que toda a gente descreve. A liberdade (que deixou de ser condicional por falta de papás) começou por ser como uma droga viciante mas, com o tempo, passa a ser tão monótona como tudo o resto.
Cozinhar todos os dias é que demonstrou ser uma tarefa mais árdua já que a preguiça fala mais alto. Mas à falta de dinheiro para cheffs… Lá me tornei eu numa!
A limpeza da casa podia ser pior, claro que custa, claro que a preguiça continua a ter voz em tudo, mas lá se vai fazendo, todas as semanas ou à necessidade da mesma. Podiam dizer que o pior seria limpar o dito WC imundo, mas não, a cozinha esgota uma pessoa pelos seus cantos e recantos, fogão e frigorífico, bancadas, mesas, chão. Que chatice, mas lá se faz!
Nunca hei de mudar a opinião que não há nada como a nossa casinha, mas esta lisboeta tornou-se num lar que nunca esperei que fosse.
Lisboa trouxe-me presentes. Amizades que sinceramente nunca esperei obter, pessoas tão doidas como eu (se não mais!). Ainda não me sinto adulta, mas com cada passo que dou, experiencio novidades que fazem de mim mais madura. Se eu soubesse antes que a mãe tinha razão no que dizia! Bem, nem tudo (mas isso é segredo)!!
Criei uma rotina que tornou para mim mais fácil adaptar-me – acordar, preparar, autocarro, faculdade, autocarro novamente, casa, comer, estudar, dormir. No início, as saudades não eram muitas, odiava andar de um lado para o outro entre Leiria e Lisboa, mas era uma obrigação que tinha que cumprir já que me submetera ao Ensino Superior na capital. Depois de dois meses, começaram a apertar… ir para Lisboa era um suplício, ainda não tinha amizades bem definidas e parecia que nada me esperava lá. Tinha um namorado em casa e uma vida escolar no outro lado (é desnecessário dizer que não correu lá muito bem porque me sentia agrilhoada a um sítio que cada vez menos parecia meu).


Leiria mudou tanto desde a minha partida, é verdade, já nem parece mais a minha linda Leiria. Passei dezoito anos a viver nela intacta, para a ver agora mudar completamente aos meus olhos em alguns meses. Não é mais minha, mas Lisboa entrou no meu coração. Se fosse há um ano atrás, a conversa seria totalmente diferente, mas aqui estou hoje de opiniões mudadas. Tenho orgulho de quem sou hoje, aprendi tanto em só um ano e só espero que aprenda muito mais nos próximos três. Só agradeço o esforço dos meus pais por satisfazerem o meu capricho de estudar fora de casa e agradeço também às amizades novas que possibilitaram que isso fosse tão mais divertido. Obrigada por tudo!

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