Aprendi a viver com a solidão
como um cão pontapeado. Não foi por escolha, mas cá me habituei. A solidão não
é o simples processo de afastar as pessoas à nossa volta. É tão mais ou, se
não, diferente disso. Aprendi a fazer tudo duma maneira autónoma e automática.
Há coisas que ainda me transcendem, mas viver sozinha não é o bicho de sete
cabeças que toda a gente descreve. A liberdade (que deixou de ser condicional
por falta de papás) começou por ser como uma droga viciante mas, com o tempo,
passa a ser tão monótona como tudo o resto.
Cozinhar todos os dias é que
demonstrou ser uma tarefa mais árdua já que a preguiça fala mais alto. Mas à
falta de dinheiro para cheffs… Lá me tornei eu numa!
A limpeza da casa podia ser pior,
claro que custa, claro que a preguiça continua a ter voz em tudo, mas lá se vai
fazendo, todas as semanas ou à necessidade da mesma. Podiam dizer que o pior
seria limpar o dito WC imundo, mas não, a cozinha esgota uma pessoa pelos seus
cantos e recantos, fogão e frigorífico, bancadas, mesas, chão. Que chatice, mas
lá se faz!
Nunca hei de mudar a opinião que
não há nada como a nossa casinha, mas esta lisboeta tornou-se num lar que nunca
esperei que fosse.
Lisboa trouxe-me presentes.
Amizades que sinceramente nunca esperei obter, pessoas tão doidas como eu (se
não mais!). Ainda não me sinto adulta, mas com cada passo que dou, experiencio
novidades que fazem de mim mais madura. Se eu soubesse antes que a mãe tinha
razão no que dizia! Bem, nem tudo (mas isso é segredo)!!
Criei uma rotina que tornou para
mim mais fácil adaptar-me – acordar, preparar, autocarro, faculdade, autocarro
novamente, casa, comer, estudar, dormir. No início, as saudades não eram
muitas, odiava andar de um lado para o outro entre Leiria e Lisboa, mas era uma
obrigação que tinha que cumprir já que me submetera ao Ensino Superior na
capital. Depois de dois meses, começaram a apertar… ir para Lisboa era um
suplício, ainda não tinha amizades bem definidas e parecia que nada me esperava
lá. Tinha um namorado em casa e uma vida escolar no outro lado (é desnecessário
dizer que não correu lá muito bem porque me sentia agrilhoada a um sítio que
cada vez menos parecia meu).
Leiria mudou tanto desde a minha
partida, é verdade, já nem parece mais a minha linda Leiria. Passei dezoito
anos a viver nela intacta, para a ver agora mudar completamente aos meus olhos
em alguns meses. Não é mais minha, mas Lisboa entrou no meu coração. Se fosse
há um ano atrás, a conversa seria totalmente diferente, mas aqui estou hoje de
opiniões mudadas. Tenho orgulho de quem sou hoje, aprendi tanto em só um ano e
só espero que aprenda muito mais nos próximos três. Só agradeço o esforço dos
meus pais por satisfazerem o meu capricho de estudar fora de casa e agradeço
também às amizades novas que possibilitaram que isso fosse tão mais divertido.
Obrigada por tudo!
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