terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Her



Os comentários queimam na pele como brasas acesas. Ela não pensa antes de falar, nunca pensou. É quase coisa de criança e não de quem devia ter mais maturidade para discernir o que é apropriado ou não de atirar à minha cara. Dói como nenhum outro comentário antes doía. Desta vez atingiu a parte sensível. Não fiquei de ouvidos moucos nem me abstraí da conversa como sempre tenho a mania de fazer (é mais fácil desligar quando ela fala pelos cotovelos, costumo até acenar como se estivesse verdadeiramente interessada, atirar ao ar uns “sins” ou “nãos” e concordar com coisas que provavelmente não concordo mesmo nada). Talvez isto soe algo insensível, mas há pessoas que abusam da nossa paciência e sempre ouvi dizer que “o melhor remédio é ignorar”.
Senti o comentário rasgar o meu coração como uma faca que corta manteiga. “Desta vez foi longe demais”, digo a mim mesma, “desta vez não perdoo”. Mas sei que isso é mentira. Considero o feito infantilidade dela, considero que a culpa não pode ser dela de ser tão irracional neste aspeto. Desculpo-a mesmo sem dar conta. Ela não merece, eu sei que não. Pelas vezes que fui esfaqueada verbalmente, já eu estaria psicologicamente morta. Mas eu ignoro, ela própria me ensinou isso. Olho para ela, em perfeito silêncio, com um olhar fulminante que a quer queimar tanto como ela me queimou a mim. Ah, se merecia… Mesmo assim, não posso. É ela, ela tem sempre desculpa, ela não tem culpa de nada. Sei que no fundo tem. Não é uma miúda, sabe que o que diz tem consequências. Mas talvez não saiba quais? Eu perdoo novamente. Vou considerar que é uma criança. Mais nova que eu, 6 anos talvez, não sabe o que faz. Deus sabe que age como uma. Uma criança que criou uma criança.
Nestes momentos, em que me sinto sem qualquer poder é que percebo como a vida é injusta. Vai haver sempre alguém melhor que tu em tudo, alguém que mande em ti, alguém que te odeia, alguém que te quer ver no fundo do poço. Principalmente, vai haver alguém que duvida inteiramente de ti. O meu conselho é: manter a calma. Sim, é difícil e quase impossível. Claro que vai custar, é mais simples mandar alguém pastar do que acalmar, mas tu consegues.
Esta minha criança é alguém que se ofende facilmente, com ela ganhei o dom da paciência. Não posso simplesmente ser má para ela: ela merece e, ao mesmo tempo, não merece. Eu sei que os comentários vão continuar a sair daquela boca amargurada pelos anos. E também sei que me vão continuar a magoar. Tudo porque eu a amo. O que ela pensa de mim importa. Mas se sobrevivi até agora, tudo é possível. Talvez ela mude um dia e, novamente, talvez não…

http://imguol.com/c/entretenimento/2014/11/12/mae-e-filha-adolescente-discutindo-1415798602894_615x470.jpg

2 comentários:

  1. Depois da nossa conversa, as tuas palavras agarram-me ao ecrã. Merecido blog que merecia reconhecimento. Adorei, adorei. Parabéns princesa!

    http://umaviagempelaminhaloucura.blogspot.pt/

    ResponderEliminar