Desde que me lembro, sempre foi assim. A frieza com que me tratava e ainda hoje trata faz parte das minhas lembranças. Julgava que algumas memórias se tinham apagado com o tempo, mas, ao ouvir desabafos alheios que me soam como familiares, fico quieta, pensativa, magoada... Não que os problemas dos outros me magoem, sempre permaneci passiva, tentando consolar conforme a necessidade da pessoa, no entanto, relembrar-me do que ficou alojado num pedaço da minha memória, trancado a sete chaves, invoca em mim a maior das dores. Confesso que não sei o que é ter uma infância normal. A minha família sempre pareceu fugir à regra. Mas julgava que nunca me iria afetar, eu não ia deixar. Estas são daquelas promessas que fazemos a nós próprios apesar de sabermos que nunca se vão cumprir. Chorei quando era criança e ainda hoje choro, de garganta apertada, tal como há 9 anos atrás. Queria passar-lhes corretor por cima, impedir de me rasgarem por dentro quando me lembro. Quero ter mais força que todos os gritos, discussões, ameaças, tremores, choros de noite inteira. Quero ter mais força que ele. Pará-lo, impedi-lo de me desiludir novamente. Ele não tem esse direito, tal como nunca ninguém terá até ao fim da minha existência.
Muitas noites desejei que ele fosse embora. Desejei com tanta força que acabou por se tornar verdade. Foi-se e eu não senti nada. Apenas dei conta que o tempo parou. Tudo à minha volta estava imóvel, nada se mexia. À minha frente estava uma mulher, deitada numa cama de casal, sem fome, sem sono, quase sem respiração. Chorava como uma Madalena, incapaz de ver o seu rumo na vida. Tinha vinte quilos a menos e umas bochechas côncavas, lembro-me como se fosse ontem. A mim não me fazia qualquer sentido ela chorar por ele, por ele ter desistido de tudo e ido embora. Para mim era uma benção, para ela - a morte. E não havia maior coisa neste mundo do que o meu amor por ela. Absolutamente nada. Então, resolvi as coisas. Fiz a única coisa que sabia que o traria de volta e que, ao mesmo tempo, me tiraria todo o meu orgulho.
Ele voltou, sempre soube que voltaria. De falinhas mansas, comprando afetos. Não foi muito tempo depois que ele voltou ao normal. Frio, insensível, ameaçador e odiável. Nunca comprou o meu afeto nem o meu respeito. Apesar de tudo isso ser o que sinto, não consigo evitar chorar quando penso no que ele é para mim. Enquanto criança, de brilhozinho no olho e ingénua, acreditava que era suposto ser assim, talvez acreditasse também que gostava dele. Oh, como gostava de voltar à ignorância e às discussões de porta fechada. Queria ter sido criança para sempre. Mas a vida não é só feita de vontades...
