Para onde vou? O que quero eu da vida? Estas perguntas misantropas que preenchem a vida humana são uma porcaria. Podia procurar um adjetivo mais visualmente apelativo mas, verdades sejam ditas, porcaria é uma palavra que bem caracteriza a minha indecisão relativa à vida.
Sempre tive uma ideia bastante definida em relação ao que queria do meu futuro, porém, com o passar do tempo, essa ideia foi-se moldando noutra e por aí em diante. De momento, a ideia nada tem a ver com a conceção inicial de ser uma médica pediatra rodeada de bebés rechonchudos e doenças estranhas.
Sou como me apresento - uma rapariga um tanto anormal, comparando com a convenção de uma pessoa do sexo feminino perto da maturidade. Os meus sonhos foram despedaçados pela cruel realidade que se calhar não sou assim tão inteligente quanto os meus pais sempre me levaram a crer. Os nossos pais estão cá para nos encorajar a ambicionar alto, a querer voar e não parar por aí. No entanto, chega uma altura em que temos que saber desistir (guardar as asinhas no armário), admitir os nossos defeitos e aceitá-los como parte de nós. Tive o azar (ou assim o considero) de não ser uma das felizes afortunadas a gostar de estudar. Pegar em livros de Química invoca o sono em mim, já para não falar em Matemática, que conjura os meus demónios mais furiosos quando chego a um impasse. Portanto, nunca me considerei sábia, mas a minha curiosidade por alguns tipos de conhecimento sempre me levou a pensar que talvez chegasse longe. Enganei-me a mim e aos grandes detentores de orgulho caso eu tivesse sucesso - a minha mãe e o meu pai.
A minha veia de escritora levou-me quase literalmente a digerir livros ao pequeno almoço, mas romances não ensinam nada muito concreto, para além da ocasional anatomia. Não que o meu amor pela leitura não tenha dado frutos! Oh, se deu! Passei Português com uma perna atrás das costas, só que isso não ajuda muito quando o curso se baseia em matemáticas em vez de letras...
Isto tudo para dizer que o comboio que o meu futuro está a tomar descarrilou há uns tempos, mas que voltou à linha assim que chegaram mecânicos que recuperassem o caminho.
Continuo sem saber bem o que quero. Enfermagem acabou por entrar numa das paragens do comboio e ficar, sem eu dar muito caso. O futuro é um poço em que desconhecemos o fundo e para o qual nos temos de atirar de cabeça. Pois bem, vou tentar atirar-me e fazer o pino pela viagem, só para tornar as coisas mais interessantes.

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