domingo, 29 de abril de 2018

Duas esferas isoladas

Dou-te a minha mão. Não me custa estender um simples membro quando precisas tu mais dele. Mas tu enxotas a minha ajuda, acreditando que de nada vale. Aí, caio eu e tu, caímos as duas na mesma escuridão. 
Como podes achar que sofres sozinha? Que idiotice. Como se me nada significasses, como assim? E isto deixa-me furiosa, possessa, contra o mundo! Quem te fez acreditar que o teu sofrimento era só teu? Que estás sozinha e essas lágrimas são silenciosas? Elas gritam mais alto do que alguma vez sei que o farás. Elas chamam-me de outra cidade, numa demanda de te arrancar um sorriso perdido. Não compreendes? Que eu e tu somos da mesma carne, somos da mesma origem, somos nós duas. 
Eu estou aqui... agarra na minha mão, por favor. Agarra-te à minha felicidade, eu dou-ta. Fico eu com as tuas lágrimas, não me importo, troca por troca e fico eu infeliz. Ainda não compreendes? Que te vejo acima de mim? Que te quero melhor que eu? 
Anos e anos que passaram no mesmo esquema, eu aqui sem poder fazer nada e tu aí sem nada a que te agarrares. Como me sinto impotente e miserável ao deixar que o tempo passe sem conseguir mudar nada. Olha para mim, para os meus olhos, vês como choram? Como pousam no vazio e olham durante tempos infinitos? Esse sofrimento já é meu. Por mais que fuja, não consigo escapar a isto. Porque somos nós as duas, eu e tu, e mais ninguém. Se fosse outra, eu renunciava à responsabilidade e escondia a culpa. Mas aqui? Connosco? Não consigo. Sou eu e tu contra o resto, mas tu não me deixas entrar e lutar contigo. Ajuda-me a ajudar-te a carregar esse peso todo, porque com duas fica mais leve. Eu gosto tanto, mas tanto de ti. Por favor.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Que raiva, Lisboa!

A grande Cidade capital. Lisboa. Aqui tantas pessoas passam ao meu lado na rua. Tantas vezes tenho eu de me desviar para não ser entroncada por um ombro alheio que bem podia ter sido desviado por hábitos de boa educação. Tantas pessoas, e passam todas a correr, numa imensa correria para estar num sítio para ao qual nunca chegam a tempo. As que andam devagar, como eu, absorvem este tolo panorama de demasiado de tudo. Demasiadas luzes, brilhantes, até sufocantes, cegantes, nunca benvindas. E o barulho? Todo o santo dia, apitos de buzinas, taxistas revoltados, discussões na rua, o ocasional bêbado que se acha cantor de ópera às três da manhã. Demasiados cheiros, dia e noite. Urina, fritos do restaurante chinês da esquina, bolor, humidade. 
Sinto-me revoltada com todos estes assaltos aos meus sentidos sem nunca terem pedido permissão. O pó, que está absolutamente em todo lado, voa e atinge-me os olhos sempre que saio de casa. Entre meia cegueira e olhos molhados, alguém se encavaca na minha direção, naquela rapidez toda do costume, e me tira o equilíbrio, levando-me o ombro à frente. Ainda tem a indecência de deixar para trás um comentário mal-humorado, que sinceramente vai com o vento e ao qual já me habituei há muito. Finalmente abro melhor os olhos, com dor, e as luzes lançam-me outra facada na vista que já nem queria ver por não ter descansado a noite toda. Resta-me o nariz que sente os fumos dos tubos de escape e os cheiros de todos os materiais de construção. Sim, porque por onde quer que se vá, há algo em construção durante meses a fio. 
Só para piorar, perde-se uma vida no trânsito. Onde o carro sobrevoa o caminho em cinco minutos, após o café da manhã de toda a gente, que é sempre à mesma hora, o mesmo carro demora meia hora, num pára-arranca repetitivo e comedor de combustível, que por si só já é absurdamente mais caro nesta bela cidade. E estacioná-lo? Sim, porque podes ter carro mas é muito improvável que tenhas garagem e onde tinhas lugar antigamente, estes novos popós XPTO multiplicaram-se como as mães e o teu pequeno boguinhas já não cabe em lado nenhum. Isto ainda aumenta cerca de vinte minutos ao teu dia stressante que pouco te deu em troca.
Estou revoltada com Lisboa, que me virou as costas, tirou-me a calma e a alma e deixou-me de rastos, sem esperança de melhorias. A minha Lisboa de há 2 anos atrás mentiu-me. Fingiu-se de boa rapariga, deu-me os encantos da lua de mel e, quando as discussões começaram, deixou-me sozinha. 
E, como nenhum mal vem só, que felicidade me resta na terra natal, onde todos sofrem sozinhos e se deprimem entre quatro paredes, enquanto eu permaneço aqui a fazer o mesmo?
Porra, o que vale é que a minha Enfermagem está muito melhor não é?

sábado, 2 de setembro de 2017

Funeral das aminimigas

Tenho evitado por tudo o que em mim existe escrever sobre esta porta que fechei na minha mente há 2 meses atrás. Evito por medo de trazer ao de cima o que me preocupa mais nestes pensamentos infelizes. 
Finalmente ganhei a coragem que achei nunca vir a ter e deixei para trás o drama que me apoquentava há tanto tempo incorporado na forma de duas pessoas. O drama da incompreensão e o sentimento de não ser suficiente nunca. O drama que não precisava na minha vida e que me derrubava de volta ao chão quando recebia uma mão para me erguer da miséria. E sabes que mais? Que porra de alívio! Sinto-me finalmente eu, algo que nunca esperei que retornasse. Hoje penso em como fui estúpida nos últimos 3 anos, em como não me reconhecia em mim mesma, em como me olhava ao espelho e via uma Catarina que tanto tinha mudado sem sequer ter dado dar conta. Quem era esta miúda que não sabia o que era ter pessoas com quem contar? Que não fazia a mínima ideia de que um encontro entre duas pessoas serve para voltar a casa de espírito mais leve e não naquele turbilhão de desilusões e cansaço? 
Quando finalmente gritei, exasperada e revoltada, a minha indignação contra quem me deixava nesse estado de insegurança, senti-me muito mal, não vou mentir. Parecia o término de um namoro de 3 anos, onde partilhámos demasiadas coisas para tão cedo esquecer as memórias. E equiparo o fim de uma amizade tal como o fim de uma relação amorosa: primeiro choro, choro muito; acho que a culpa é minha, que fui quem estragou tudo e que queria voltar se a oportunidade assim ocorresse; depois sinto saudades, apesar de a distância e o tempo melhorarem a auto-culpa que a mim me dava, sinto que é difícil ocupar o espaço dessa pessoa; porém, mais tarde, começo a ver os defeitos que inicialmente tão bem tolerava e que agora odeio de morte, culpo-a por tudo e chamo-lhe todo o tipo de nomes; por fim, atinjo o meu nível de nirvana em relação a essa pessoa, largo todas as frustrações que ela em mim colocou e distancio-me por completo; é nesta etapa que sei que essa pessoa já não me magoa, nem nunca virá a fazer parte da minha vida novamente. Porque ao longo destes 2 meses, eu fiz-lhe uma cerimónia fúnebre, comigo presente e sem direito a flores. Para mim chega, porque pessoas que conseguem fazer-me sentir pior do que eu me faço a mim mesma não merecem um lugar sentado na minha plateia que é a vida.
Adeus, não serás lembrada.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Amor Maior"

Sinto um peso na consciência. Não um peso de culpa, porque sei que não a sinto. Mas um peso sim, como um pé de chumbo, que me pisa o peito para me manter presa ao chão. 
Tu és o culpado. Como muitos outros, admito. Talvez o problema seja até comigo, que transporto comigo o chumbo sem sequer dar conta. 
Queria de ti carinho, compreensão. Algo me diz que te peço muito. Exijo tanto e retorno com quase nada. Que hipócrita. Mas, ao mesmo tempo, não sei ser diferente. Sou fria, exigente, mal humorada e anti-criticismo. Tantos defeitos numa só pessoa? Sim, enfim... Uma pessoa marcada pelo tempo não é a mesma. Outrora doce, excelente ouvinte de todas as piadas secas e sorriso TV em todas as ocasiões, hoje sou outra. Mesmo assim, não acho que seja uma mudança má. 
Porém, tu odeias. Tu gostas do romantismo e palavras melosas, dos telefonemas inesperados e mensagens tipo testamento às altas da noite. Mas querido, eu mudei. Contigo, por ti, por causa de ti. Eu mudo tão frequentemente em adaptação ao meu mundo que já nem me conheço. Sinto que sou uma adolescente, a perguntar às paredes quem sou. 
Mas querido, tu viste o melhor de mim. Só que todas as moedas têm duas faces, viste a coroa, agora dá de frente com a cara, que não é tão amigável ou sorridente assim, não como pensavas pelo menos.
Sabes o que chamo a isto? A evolução duma relação entre duas pessoas. Não é tudo mel, romance e flores. Somos dois seres humanos que se revoltam com a vida de vez em quando. Somos duas pessoas que por vezes discordam. E principalmente, não somos a mesma pessoa. Claro que isso resulta em conflito nalguns dias. Eu sou difícil, admito. E tu igual. Ambos teimosos, chatos, por vezes mesquinhos e desligados. Se calhar até somos mais parecidos do que pensávamos. Atraímo-nos um pelo outro pelo bom que havia em ambos, mas curioso como não nos abandonamos pelo mau. Não sei como, nem sei como explicar. Há uma segurança que existe, sem nunca ter sido discutida ou implementada. Simplesmente está lá. E por mais que os ressentimentos aflorem na relação, o cinto de segurança mantém-nos dentro deste carro no qual decidimos entrar há 2 anos atrás.
Eu sei que me odeias um bocadinho. Vá, vou admitir que até percebo. Mas espero que o amor seja maior. Maior que tudo e todos. Eu sei, porque falo por mim...

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Devaneios deprimentes

Com certeza já ouviram falar da expressão "quem nunca pecou que atire a primeira pedra". Não é que eu seja cá muito de religiosidades ou devota a alguma crença específica, mas acho curioso como, se isto fosse dito no Facebook, apareciam vinte mil marmanjos em 0.25 segundos a desbaratar sobre como o próprio ato de atirar uma pedra já é pecar ou como todos eles são bons samaritanos.
Por trás de um teclado usado a dedos rápidos e do belo mundo virtual que espelha apenas o que queremos demonstrar, vivem todos os ogres e os maus da fita que se esconderam em embrenhadas histórias de contos de fadas, as quais já parecem verdadeiras aos mesmos. 
As nossas hoje queridas redes sociais tornaram-se em mentiras ambulantes que usamos para nos representar ao mais elevado nível de perfeição. Vamos ser honestos, esta expressão devia ser mudada para "quem nunca tirou 46.7 fotos ou adicionou efeitos antes de escolher a de perfil que atire o primeiro comentário depreciativo"!.
A meu ver há dois tipos de pessoas nas redes sociais: as espectadoras passivas e os comentadores agressivos. Ora, quando digo agressivos não falo em violência em si e sim na sua necessidade quase compulsiva de deixarem a sua marca em quase todos os perfis dos seus "amigos" facebookianos. As primeiras talvez sejam tão más quanto as segundas, o comentário depreciativo não fica publicado mas permanece gravado na memória para mais tarde usar se for necessário humilhação pública. Seremos sinceros agora também: nunca é, mas há pessoas que insistem em fazê-lo. Por outro lado, as segundas são ou muito chatas/repetitivas ou o teu Relações Públicas que precisa de manter a tua "imagem".
A coragem cresce quando a distância física aumenta. Verdade. No meu caso, isso resultou em conhecer alguém sem ter medo de ser eu. No entanto, não podia deixar de ter conhecido o lado mau também, os ditos corajosos que pessoalmente passavam despercebidos se lhes passasse ao lado na rua. Porém, aqui em pleno mundo virtual, fazem-se de meninos crescidos que exigem tudo e mais alguma coisa de alguém que não conhecem. 
Ensinamos desde sempre às crianças que mentir é feio. Ensinamos também que não faz mal ter um smartphone aos dez anos de idade, mas que não podem ter perfis verdadeiros nas redes sociais. A mim parece-me contraditório... Serei a única a achar isso?

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Um adeus doloroso...

Sabe uma coisa, D. Zaira? Nunca pensei ver a chegar este dia. Na minha cabeça, quando ouvisse falar da sua inexistência, estaria casada, com muitos filhos e iria, com pesar, dizer as minhas últimas palavras como pessoa que a adorava. Iria criar os meus filhos baseada em si e no seu tratamento comigo. Iria ensiná-los como me ensinou a mim os valores da vida.
Cresci, algumas pessoas passaram a memórias que esmorecem com o tempo. Mas, em si D. Zaira, pensava com frequência. Em como cuidara de mim, na saúde e na doença com tanto amor. Foi uma segunda mãe durante esse tempo todo em que fiquei em seus cuidados. É verdade que a minha paixão por gomas começou consigo (mesmo que o diga com pena hoje), mas ensinou-me a amar a sua comida caseira com muito mais força. Ainda hoje, se fechar os olhos, vejo a sua casa. As pessoas que nela estavam todos os dias, a hora de almoço com mesa cheia, os passeios, o café do bairro e as crianças que passavam pelas suas mãos. Lembro-me, com carinho, como conheci quase os Marrazes inteiros só por passeios consigo, era rara a vez em que não fossemos a pé a algum lugar, só porque podíamos, só porque a senhora amava o seu bairro e as pessoas nele como a amavam a si por igual. 
Hoje, choro, não só por não poder dizer adeus, mas também por ser cobarde - não quis vê-la dessa maneira, não quis quebrar-me em choro à sua frente, ao ver como poderia estar mudada, não quis ver a sua sempre cara sorridente em sofrimento. Sabe porquê, D. Zaira? Porque para mim foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Guardo com carinho todas as memórias, todos os cheiros deliciosos dentro da sua cozinha, todos os passeios, todas as conversas cheias de conselhos e, principalmente, todo o amor que me deu. Tratou-me como mais uma filha, da mesma maneira que todos os outros seus "filhos". Não me posso despedir, nem dizer um adeus, mas hoje estou aqui, de coração aberto e apertado para lhe dizer que espero que agora esteja melhor, que tenha a paz e o conforto com que sempre nos fez sentir, que tenha todo o amor e aconchego que nos deu sempre. Sei que vai estar a olhar cá para baixo, sempre de olho em nós. Obrigada não chega nem que vivesse cem vezes, D. Zaira.
Com amor, Catarina.

domingo, 17 de abril de 2016

Pânico

Falhei novamente um dia. De propósito porque isto me torna incapaz de manter os olhos abertos durante a leitura da sebenta que tenho à minha frente. Eu sabia das consequências, sei sempre, mas penso: hoje estou em casa, fechada, não há stressores à minha volta. Estúpida, chamo-me a mim própria. É logo o meu primeiro pensamento. O segundo, a dúvida -  de quem sou, do que quero, se sou boa o suficiente para manter esta farsa à frente de tantos olhos que me vigiam dia sim, dia sim. 
A última fase tira-me tudo. Olho-me ao espelho, vejo um corpo demasiado cheio, deformado, marcado pelas memórias, vejo nojo no meu rosto, pernas muito gordas, barriga muito grande, rabo muito pequeno, cabelo seco, olheiras, lábios finos, acne, dedos e costas tortas... vejo uma mentira. Todos os dias me digo que sou bonita, mas quando o meu comprimido não me eleva ao rosto um sorriso e um humor agradável, eu perco-me. Perco tudo, perco a razão. Mais uma vez falhei. Maldita cabeça, porque pensas que aguentas neste momento de fraqueza? Principalmente, perco a minha noção de que sou uma jovem de quase 20 anos, atrativa a outras pessoas como eu me atraio também. Passo a ser um bicho de sete cabeças que se esconde num quarto escuro o dia todo. Hoje, perdi tudo. Amanhã, é um novo dia. Nota para mim mesma: deixa-te de merdas e toma sempre o comprimido.