Das coisas que mais vejo na internet ou televisão, o que realmente se destaca é a expressão "perder peso".
Vivemos nesta cultura obcecada por perder peso de maneira fácil: seja com comprimidos, receitas milagrosas ou abster-se de comida.
Durante algum tempo, lutei com o meu excesso de peso. Muita gente olha para mim hoje e diz que não, que devo estar a gozar, que sou outra daquelas que se achava gorda quando nunca o experienciou de verdade.
Pois bem, vou-vos contar como eu o vivi quando era pequena.
Quando tinha 4 ou 5 anos, era muito magra. E a verdade é que na cultura portuguesa, "quer-se é alguém cheiinho". Com esta filosofia, a minha mãe dirigiu-se à farmácia e comprou-me um daqueles xaropes com uma caixa toda colorida para me aumentar o apetite. Eu recusava-me a tomar aquilo, tinha um sabor estranho, uma cor ainda mais desagradável, mas ela lá me convenceu que era bom para a minha saúde ser mais gordinha (coisa que eu sei hoje não ser bem verdade).
Seu dito, seu feito. Lá engordei eu rapidamente, o meu apetite subiu em flecha e comia cada vez mais avidamente o que me fosse colocado à frente.
Infelizmente, o aumento de peso foi um pouco superior ao esperado, cheguei à idade de 9 anos com a alcunha de "cara de bolacha". Todos os meus familiares distantes brincavam com o facto de a minha barriga se assemelhar à de um velho adepto de futebol e cerveja. Na minha turma, era a segunda mais pesada.
Com o passar dos anos, sempre me achei gorda. Realmente toda a gente à minha volta o dizia! Em educação física, era das pessoas mais lentas, não tinha resistência absolutamente nenhuma e era, preferencialmente, a última a ser escolhida para as equipas, que me colocavam quase sempre à baliza fosse qual fosse o desporto.
A coisa foi melhorando quando dei o meu salto em estatura. Já só se notava um pouco de barriguinha debaixo das camisolas, mas as coxas continuavam como presuntos para venda. Chegou uma altura em que me recusava a comer. Já era tão gorda, para quê comida não é? Então a minha mãe tentou arranjar maneira de me fazer meter algo no estômago: começou a comprar todo o tipo de comida processada que não me alimentasse só a boca como os olhos. Voltei a aumentar de peso. Nessa altura, os miúdos metiam-me de parte, nas suas brincadeiras de namoro recusavam a incluir-me, eu não era vista como bonita ou minimamente atraente.
Então, num dia de verão, após um daqueles almoços monstruosos a que estava habituada, uma dor horrível trespassou-me, começando no umbigo e irradiando para o lado direito e inferior do meu abdómen.
Esta dor continuou o dia todo e consecutivamente à noite, pois os meus pais acreditavam ser outra das minhas fitas. Mas quando os vómitos não paravam nem com água e as lágrimas já não conseguiam evitar correrem pelas bochechas abaixo, fui levada logo na manhã seguinte à urgência do hospital. Para os profissionais de saúde, era claro: apendicite. Diziam-me que provavelmente a falta de beber água ou a minha alimentação deficiente o teriam provocado. Fui operada nessa tarde, para meu grande pavor.
Depois da operação, explicaram-me tudo. Tinha chegado às urgências já com o apêndice rebentado e uma hemorragia ainda grande. Era passível de ficar mais tempo no hospital do que o normal. E assim foi: uma rapariga que chegou depois de mim, foi embora antes. E eu lá permanecia, para minha vergonha.
Com isto, perdi muito peso. Não comendo durante 5 dias, perdi sete quilos. Com o corpo tão desnutrido, pareciam muitos mais.
Lembro-me de chegar a casa e pensar: mas onde está o meu rabo?!
Na escola, já não era gozada. Toda a gente passou a invejar o meu corpo sem carne. Sonhavam ser como eu! Atiravam-me à cara a sorte que tinha...
A partir daí, os meus problemas de hipertiroidismo começaram a notar-se. O meu corpo queria doces, mas os doces não me faziam engordar! Comia, comia imenso e nada me enchia o espaço entre a pele e o osso. No liceu, adorava exercício físico, mesmo que por vezes me sentisse mal e com vontade de desmaiar.
Só quando cheguei à faculdade é que me senti finalmente mais calma. Comecei até de facto a cozinhar por mim própria e os quilos foram-se acumulando. Nunca deixei que evoluísse para além do saudável. Assim que me sentisse mais cheiinha, começava a treinar, beber mais líquidos e cortava nas porcarias.
Hoje sinto-me bem. O meu corpo sentiu tantas diferenças ao longo do tempo que já não é o mesmo, mas eu sei que não há emagreceres fáceis. Comigo, o meu emagrecer significou dor, sofrimento.
E, na verdade, é assim para toda a gente, seja por cortar nas coisas que gostam ou exercitar o corpo até atingir o padrão de beleza que esperam.
Acordem.. e saiam de casa em vez de procurarem soluções rápidas online. Ouvi de tudo, desde gengibre, a um copo de água com gotas de limão ao acordar. Isso não muda muito se continuarem a comer mal, de rabo alçado no sofá, não acham?
A solução? Encontrem a motivação de que precisem e metam mãos à obra.
Boa sorte!