Vi-o olhar para mim, carinho naqueles olhos doces. O passado batia à porta, novamente... Não era justo para ele, nunca foi. Sempre me entregou tanto que acho injusto eu entregar-lhe os meus problemas. "Deixa-me falar com ele" - ele disse - "eu resolvo isso por ti". Neguei. Os meus problemas resolvia eu. Mas não deixava de amar a consideração que ele me dava. Amor agora significa tanto quando olho naqueles olhos. E, quando vejo dor, despedaça-me o coração por dentro, tremem as minhas mãos dos nervos. Quero que nunca mais tenhas de te preocupar com isto. Quero poder apagar o passado, mas, esse, já vai longe, ninguém o apaga.
Mesmo assim, resolvo eu. "Não precisas de te preocupar, vou meter o passado no sítio onde pertence". Olhou para mim, fixou-me e pensou. Assentiu com aquela sua cabeça pensadora e não disse mais nada.
E assim o fiz. Remeti o passado para aquele poço sem fundo, livrei-me das preocupações... O que o passado não percebe é que agora sou feliz e ele só quer remexer as águas que querem ficar paradas.
Encontrei tudo o que procurava durante a minha existência: a minha alma gémea. E ninguém separa almas gémeas, nem o passado nem o presente. Sim, porque o futuro fazemo-lo nós.
Curioso como ele disse: "Um dia quero casar contigo!" e, para minha surpresa (que casamento sempre foi uma abominação para mim), respondi-lhe: "Pois nesse dia direi sim".
Ele é o meu sorriso, o bater do meu coração, a minha respiração ofegante e os meus pensamentos turbilhantes. Ele é tudo o que nunca encontrei antes. Não há sequer a hipótese de um fim, ele já faz parte de mim.
Por isso, passado, fica no passado e deixa o meu presente fazer-me feliz porque tu foste só mais um, enquanto que ele é o Tal.
