quinta-feira, 16 de abril de 2015

E deixares-me em paz?

Esta é a última vez que me dirijo a ti. No início, podia jurar que ódio seria uma palavra demasiado forte para ti, que era só desprezo e um nojo pela tua falta de amor-próprio. Até pensei que chegarias à mesma conclusão que eu - que nada do que dissesses me faria mudar de ideias e que isto era o fim.
Mas os dias passaram e tu insistias, o meu desprezo começou a crescer, olhei para o passado e apercebi-me do quão pouco me significas, que és só um empecilho e que por mais manipulação que me fizesses, eu nunca iria ceder.
Tu, por mais chato e insistente que fosses, nunca irias ter mais uma oportunidade. Tu és um péssimo ser humano, não respeitas o que te peço e perdeste todo o respeito que eu poderia ter por ti. Nem sei sequer porque me estou a preocupar com isto, talvez seja a minha maneira de fechar o capítulo, mas estou aqui a escrever, cheia de raiva, a pensar no que não foste para mim, no tempo que desperdicei quando podia ter estado a aproveitar tão mais a vida. 
Pois bem, fica aqui o apelo pelo mínimo do teu orgulho que reste. Pára, pensa na tua vida e, se queres pensar em mim, pensa em como eu não sou feliz com essa tua teimosia, em que, se em tempos era fofa, agora é merda. Desculpa a sinceridade, mas depois de tanto tempo e de tantos SMS bloqueados que apareciam no meu telemóvel, a minha cordialidade ficou à porta.
Só de ver o teu nome, uma onda de náuseas cobre-me de cima a baixo. Ódio é realmente a palavra certa para descrever a tua escolha de atitudes. Até os amigos em comum que tenho contigo ficam na dúvida, quem apoiar?
Tudo o que tinhas de positivo saltou, quase literalmente, de um prédio abaixou e morreu, sim, porque restaram apenas os defeitos de que nunca gostei.
Talvez este pequeno testamento finalmente te espete nessa tua cabeça oca que não existe mais eu e tu, aliás, agora que penso nisso, nunca houve, era ilusão minha, tentando recuperar o coração que tinha perdido há pouco tempo. Só por isso peço desculpa, o resto - tu mereces.

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terça-feira, 24 de março de 2015

Changes

Tenho medo da mudança. Pronto, finalmente disse-o. Tenho medo de não poder controlar as coisas mais importantes. E, principalmente, que nunca consiga chegar às minhas próprias expetativas. Agora que vejo, tenho medo de quase tudo. Mas uma coisa que não sou é burra. Não vou deixar que um medo irracional (ou não tanto assim) me trave. Eu vivo com medo, mas sobrevivo com ele também. Não me vou deixar negar as coisas mais simples e bonitas da vida. Às vezes mudança é mesmo o que preciso. A fase inicial é difícil pela sensação de que aderir à mudança é um processo doloroso e demasiado repentino.
O medo não me trava uma coisa: ir atrás do que quero. E eu sei perfeitamente o que quero neste momento. E, mais cedo do que mais tarde, vai ser meu.

sábado, 14 de março de 2015

Lisboa a entranhar

O sol quente batia-me nos olhos, cegando-me para a vida. Estava um calor abrasador com sabor a verão. Esperava impacientemente na paragem de autocarro. 9 minutos para o 68. 9 minutos parecia-me uma eternidade. Comecei a olhar para a calçada que me rodeava na esperança que assim o sol não me magoasse tanto os olhos. O calor parecia chamar todos os pombos das redondezas, com a árdua tarefa de procurar migalhas por entre o lixo lisboeta. Olhei com curiosidade para um pombo que coxeava. Não podia deixar de sentir pena, mesmo pela ave considerada a praga das pragas da cidade. Tinha um coxear estranho, mais do que apenas uma pata partida concerteza. Fixei o olhar nos altos e baixos que a pobre ave dava. Faltava alguma coisa. Foi aí que vi. O pombo não tinha duas patas, mas sim um coto no lugar da pata esquerda. Mesmo assim, apoiava-se no coto como se se tratasse dum apoio totalmente normal.
Aquele pombo podia ter desistido da vida e definhado, esperando a morte sossegado no seu cantinho. E, apesar disso, não o fez. A ferida sarou com o tempo e o pombo continuou na sua procura de alimento. Custa-me a crer que seja apenas instinto. Talvez não tenha desistido porque algo o fez resistir às adversidades que encontrou. Tudo o que sei é que este pombo me ensinou uma lição de vida. Até quando falta algo, vamos ter sempre a possibilidade de continuar. É só deixar o tempo curar as feridas e continuar com o nosso "coto" como se fosse tudo normal.
Acabei por apanhar o 01 e não o 68. Dei uma volta muito maior que o costume, e, ainda assim, não me arrependi minimamente. Observei a luz solar que me banhava pelas janelas do autocarro, os prédios que passavam de ricos a pobres em meros metros e o ocasional Porsche. A verdade é que não podemos pedir mais do que temos, ou fantasiar vidas que não são nossas. Há que aceitar as adversidades e procurar as pequenas dádivas que nos são oferecidas. Sonhar com o impossível? É muito bonito no papel, mas na realidade, tudo muda.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Her



Os comentários queimam na pele como brasas acesas. Ela não pensa antes de falar, nunca pensou. É quase coisa de criança e não de quem devia ter mais maturidade para discernir o que é apropriado ou não de atirar à minha cara. Dói como nenhum outro comentário antes doía. Desta vez atingiu a parte sensível. Não fiquei de ouvidos moucos nem me abstraí da conversa como sempre tenho a mania de fazer (é mais fácil desligar quando ela fala pelos cotovelos, costumo até acenar como se estivesse verdadeiramente interessada, atirar ao ar uns “sins” ou “nãos” e concordar com coisas que provavelmente não concordo mesmo nada). Talvez isto soe algo insensível, mas há pessoas que abusam da nossa paciência e sempre ouvi dizer que “o melhor remédio é ignorar”.
Senti o comentário rasgar o meu coração como uma faca que corta manteiga. “Desta vez foi longe demais”, digo a mim mesma, “desta vez não perdoo”. Mas sei que isso é mentira. Considero o feito infantilidade dela, considero que a culpa não pode ser dela de ser tão irracional neste aspeto. Desculpo-a mesmo sem dar conta. Ela não merece, eu sei que não. Pelas vezes que fui esfaqueada verbalmente, já eu estaria psicologicamente morta. Mas eu ignoro, ela própria me ensinou isso. Olho para ela, em perfeito silêncio, com um olhar fulminante que a quer queimar tanto como ela me queimou a mim. Ah, se merecia… Mesmo assim, não posso. É ela, ela tem sempre desculpa, ela não tem culpa de nada. Sei que no fundo tem. Não é uma miúda, sabe que o que diz tem consequências. Mas talvez não saiba quais? Eu perdoo novamente. Vou considerar que é uma criança. Mais nova que eu, 6 anos talvez, não sabe o que faz. Deus sabe que age como uma. Uma criança que criou uma criança.
Nestes momentos, em que me sinto sem qualquer poder é que percebo como a vida é injusta. Vai haver sempre alguém melhor que tu em tudo, alguém que mande em ti, alguém que te odeia, alguém que te quer ver no fundo do poço. Principalmente, vai haver alguém que duvida inteiramente de ti. O meu conselho é: manter a calma. Sim, é difícil e quase impossível. Claro que vai custar, é mais simples mandar alguém pastar do que acalmar, mas tu consegues.
Esta minha criança é alguém que se ofende facilmente, com ela ganhei o dom da paciência. Não posso simplesmente ser má para ela: ela merece e, ao mesmo tempo, não merece. Eu sei que os comentários vão continuar a sair daquela boca amargurada pelos anos. E também sei que me vão continuar a magoar. Tudo porque eu a amo. O que ela pensa de mim importa. Mas se sobrevivi até agora, tudo é possível. Talvez ela mude um dia e, novamente, talvez não…

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ingenuidades

Desde que me lembro, sempre foi assim. A frieza com que me tratava e ainda hoje trata faz parte das minhas lembranças. Julgava que algumas memórias se tinham apagado com o tempo, mas, ao ouvir desabafos alheios que me soam como familiares, fico quieta, pensativa, magoada... Não que os problemas dos outros me magoem, sempre permaneci passiva, tentando consolar conforme a necessidade da pessoa, no entanto, relembrar-me do que ficou alojado num pedaço da minha memória, trancado a sete chaves, invoca em mim a maior das dores. Confesso que não sei o que é ter uma infância normal. A minha família sempre pareceu fugir à regra. Mas julgava que nunca me iria afetar, eu não ia deixar. Estas são daquelas promessas que fazemos a nós próprios apesar de sabermos que nunca se vão cumprir. Chorei quando era criança e ainda hoje choro, de garganta apertada, tal como há 9 anos atrás. Queria passar-lhes corretor por cima, impedir de me rasgarem por dentro quando me lembro. Quero ter mais força que todos os gritos, discussões, ameaças, tremores, choros de noite inteira. Quero ter mais força que ele. Pará-lo, impedi-lo de me desiludir novamente. Ele não tem esse direito, tal como nunca ninguém terá até ao fim da minha existência. 
Muitas noites desejei que ele fosse embora. Desejei com tanta força que acabou por se tornar verdade. Foi-se e eu não senti nada. Apenas dei conta que o tempo parou. Tudo à minha volta estava imóvel, nada se mexia. À minha frente estava uma mulher, deitada numa cama de casal, sem fome, sem sono, quase sem respiração. Chorava como uma Madalena, incapaz de ver o seu rumo na vida. Tinha vinte quilos a menos e umas bochechas côncavas, lembro-me como se fosse ontem. A mim não me fazia qualquer sentido ela chorar por ele, por ele ter desistido de tudo e ido embora. Para mim era uma benção, para ela - a morte. E não havia maior coisa neste mundo do que o meu amor por ela. Absolutamente nada. Então, resolvi as coisas. Fiz a única coisa que sabia que o traria de volta e que, ao mesmo tempo, me tiraria todo o meu orgulho. 
Ele voltou, sempre soube que voltaria. De falinhas mansas, comprando afetos. Não foi muito tempo depois que ele voltou ao normal. Frio, insensível, ameaçador e odiável. Nunca comprou o meu afeto nem o meu respeito. Apesar de tudo isso ser o que sinto, não consigo evitar chorar quando penso no que ele é para mim. Enquanto criança, de brilhozinho no olho e ingénua, acreditava que era suposto ser assim, talvez acreditasse também que gostava dele. Oh, como gostava de voltar à ignorância e às discussões de porta fechada. Queria ter sido criança para sempre. Mas a vida não é só feita de vontades...

domingo, 21 de dezembro de 2014

Passar a palavra

Curioso como estar do outro lado dá uma perspetiva totalmente nova da vida. Não ser o coração partido, mas sim aquela que reconforta quem o tem em pedaços. Gostava de poder fazer mais. Mostrar o quanto tudo pode ser destruído e reconstruído as vezes que quisermos. Somos humanos e não haverá, com certeza, espécie mais persistente que o teimoso do ser humano. Desejava poder extrair as minhas memórias e colocá-las num DVD, permitir que outros as vissem, em prol da aprendizagem. Não que eu, sendo uma recente maior de idade, tenha muito para ensinar, mas acho que sempre tentei ver o lado positivo das coisas e prosperar, em vez de ficar à espera daquilo que pode demorar eternidades e mesmo nem vir. Não me cabe na cabeça o facto de as pessoas ficarem à espera de tudo. Está bem que cada um é como foi ensinado e educado ao longo dos anos da sua existência, só que fico confusa como podem permanecer quietos e ver tudo ruir lentamente. Há que trabalhar porque, por mais cliché que seja, nada se faz sem esforço. Dinheiro não compra corações, só avarezas.
Queria poder incendiar todos os corações à minha volta como o meu está, em chamas. Amava ligar a luz, que se acendeu na minha mente, a todos os outros que se encontram apagados. Não há como descrever este sentimento de plenitude, de que tudo está bem e que assim ficará. Nada é eterno, é estúpido pensar dessa forma, porém esse tipo de segurança, calor e carinho, é o combustível para os nossos corpos singelos que, sem isto, não têm vida. Queria mostrar como é possível esquecer, ainda que não completamente, cenas e cenários que fazem parte deste teatro infernal que é a vida. Não é tudo meloso como um conto de fadas, há discussões e mais discussões, turras, maus momentos... E, no entanto, não posso dizer que isso seja, de todo, algo mau! Porque é com o fazer as pazes que nos tornamos tão mais unidos, tão mais conhecedores um do outro, tão mais percetíveis de quem nós próprios somos. É díficil perdoar e ainda mais ser perdoado, mas tudo isso se aprende com uma relação que quer funcionar.
Amo os pequenos momentos de sorrisos que tudo dizem, de olhares que falam por si próprios, de silêncios que gritam mais que a própria voz. O amor é uma coisa estranha e nunca é perfeito. Claramente, a perfeição ficou à porta quando este foi feito. E, mesmo assim, se não fosse o amor, a vida não tinha significado nenhum. Digam isso aos eremitas que nunca conheceram o que é viver.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas

Perdi tempo a pensar no passado. Sim, eu sei, coisa que nunca devia ter feito mas, com tantas mudanças a ocorrer à minha volta, queria pensar naquilo que nunca mudará porque já lá foi e não volta certamente. Psicologia e a maldita professora de voz esganiçada levou-me a pensar nisso. "Para as mais emocionadas com o filme que vimos, o que vos levou a esse estado, que lembranças vos trouxeram?" Para quem não sabe, sou a pior no que toca a momentos tristes retratados virtualmente. É-me completamente impossível não chorar durante uma morte ou um momento mais intenso num patético filme que de nada tem realístico. "O estranho caso de Benjamin Button" levou-me aos apertos na garganta e a umas quantas lágrimas que me escorreram pela cara. Estúpido, não é? 
Pensei na pergunta dela. O que realmente me levou a chorar foi a identificação com o sentimento de perda. Como é destroçante perder alguém porque a vida assim o dita, mesmo tendo vivido e experienciado tanto. Curiosamente, a primeira pessoa que me veio à mente foi o meu avô. Estranhei já que a perda da minha avó não foi assim há tanto tempo quanto isso. E é agora, mais do que nunca, que valorizo a sua existência na minha vida e o quanto lamento não ter podido aprender mais com ela, nos seus tempos mais frutíferos e conscientes.
Faz quase 10 anos desde que o meu avô faleceu. E há 10 anos atrás, tudo mudou. Ele era, e sempre será, tão importante para a minha família e para mim que a sua perda foi o mesmo que perder um pai. Pessoa mais simpática e de bom espírito não conheci, infelizmente. E eu era tão nova quando o perdi que não devia ter assim tantas lembranças dele e, no entanto, tenho. Ele marcou-me fortemente, tal como à minha mãe, que não consegue falar da sua partida sem se emocionar.
Durante muito tempo, rezei para que voltasse. Que fosse tudo mentira, a sua ida sem retorno, a não despedida final, o que ficou por dizer... Ainda hoje desejo que volte. Mas partiu calmamente ou pelo menos espero que sim.
Tudo o que ele foi é um exemplo para mim. Tudo o que quero ser baseia-se nele. O meu carinho ficará para sempre guardado para ser retribuído, como ele fez por nós. 
As mudanças dão que pensar. Julgar-se-ia que com o ruído de fundo de Lisboa, não houvesse espaço para interiorizar nada, mas a verdade é que é precisamente o contrário. Lisboa não me acolheu calorosamente como um avô, mas não importa, hei-de acolhê-la eu, no meu coração. Ou partirei a tentar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Natal dos bolsos rotos

Com o chegar do Natal, a minha falta de entusiasmo deprime-me. Talvez seja porque, sendo uma altura de tantos gastos e eu com os bolsos rotos, não possa fazer grande festejo e isso me desiluda. Não se deixem enganar, as luzes românticas espalhadas pelas duas cidades que vejo constantemente ainda me apaixonam de tal forma que paro na rua só para pasmar, de olhar fixo no brilho caloroso (e que de quente nada tem) que tanto me atrai. Os vermelhos, verdes e dourados dão aquele arzinho de festa que tanto amo mas, verdade seja dita, "no money, no funny" (aqui à grande e à inglesa). 
O melhor do Natal talvez não seja apenas as prendas em si, mas também a comida que cresce água na boca só de pensar. O belo do camarão cozido e o bolo-rei à vontade do freguês... No entanto, todos estes elementos só estão presentes com uma carteira recheada, que do bom camarão e bolo-rei decente, sei eu o quanto custa! 
É triste uma época natalícia tão pobre em fartura, infelizmente a época das vacas gordas já lá vai há muito. E, apesar da muita falta de tudo (até da de espírito), não vai faltar a família, a sempre presente família que, nos altos e baixos, arranja sempre um pouco de alegria para me fazer o dia. Estar longe de casa traz saudade até à mais fria das pessoas e a realidade é que sinto falta de todos estes miminhos e ocasiões especiais. Que o Natal venha depressa e para todos, os que se encontram como eu e os afortunados também, feliz festas!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Negociar o amor

Estar numa relação é o mesmo que começar um negócio, não que seja tão frio e banal como uma mera troca de oportunidades e dinheiro, mas começa como tal. Há o conhecer, saber que aquela oportunidade se encontra ao nosso alcance. A seguir, o projecto - neste caso, o sonho do que virá, a projeção de um futuro juntos. Logo depois dá-se o chamado empréstimo, precisas de dinheiro num negócio tal como precisas de amor numa relação. Quando a empresa começa, há altos e baixos, em que ganhas e perdes dinheiro numa velocidade alucinante, como uma montanha russa com todo o tipo de curvas e contracurvas. Essa empresa pode ter imenso sucesso e tornar-se multimilionária mas apenas com muito trabalho, muito investimento de lágrimas e suor, assim como dás tudo o que tens, corpo e alma, para aquele que o merece. Porém, nem sempre achamos um bom investimento, aliás, mais facilmente encontramos um buraco negro para o nosso dinheiro (suga tudo e não retribui) do que um negócio vitalício. Há que saber procurar, mas também há que ter alguns prejuízos antes de chegar ao sucesso. No entanto, assim que chegas à enorme satisfação de teres uma empresa que gere cada vez mais dinheiro, estás nas nuvens, a viver à grande (ou pelo menos sentes-te assim).
Estar numa relação é tanto o mesmo que começar um negócio como acabar uma relação é o mesmo que ir à falência... Perde-se tudo, mas o sonho continua lá.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Saber quando sair.



Perguntei-me a mim própria o porquê. Tantos à minha volta sofriam do mesmo mal. No mundo, não estava sozinha, mas cá dentro, no meu mais íntimo, sentia uma solidão e amargura desmesuradas. Parecia que o mundo me tinha virado as costas como se eu fosse um simples bicho de quem ninguém gostava. 
Ir às aulas, ou melhor, arrastar-me até às aulas, era um suplício. Ouvi meia dúzia de palavras como música de fundo (se é que foram tantas), enquanto pensava no fim (isto durante meses a fio). No fim de tudo, das aulas, dos amigos, da família. Será que as amigas notariam diferença, será que a mãe reagiria loucamente ou será que o irmão sentiria falta? 
Talvez um prédio alto resolvesse o assunto. Um passo em frente e mais ninguém sofria pela minha presença a mais no mundo. Ocupava espaço que poderia ser melhor usado por alguém que realmente o merecesse e quisesse. Talvez se tudo acabasse com o prédio!...
Mas... e a minha mãe? A minha fiel companheira nas horas de tristeza, nas horas de desabafo, nos choros de baba e ranho por rapazes que não mereciam atenção. E ela? Que seria feito da pessoa que dedicara toda a sua vida a providenciar amor e carinho, comida e abrigo para uma ingrata que se achava a mais na terra? Era injusto tirar-lhe um dos seus bens mais preciosos porque eu, uma miúda que ainda nada sabia do mundo, achava que estava na hora, que a viagem já se tornara demasiado longa, que era exatamente isso, apenas uma passageira nesta aventura e não alguém que quisesse visitar os pontos de interesse. 
O apetite voltou. Cada dentada a mais que comia do prato fazia emergir um sorriso da cara da minha mãe. "Estás a comer melhor!", dizia alegremente. Ossos e pele deram origem a carne, a consistência. Cada sorriso me tornava  mais forte, mais viva! Comprimidos e suplementos vitamínicos voltaram para a gaveta, para ficarem para sempre perdidos. Sentimentos de culpa e desolação afrouxaram para dar espaço a um sentido de humor, criado por boas companhias. Um sorrisinho aqui, uma gargalhada ali e fiquei a quase cem porcento do que era anteriormente. Nunca seria a mesma, feridas cicatrizam mas nunca desaparecem. Aprendi. Se se criou algo de bom desta experiência terrível, foi a aprendizagem. É preciso saber o que é querer morrer para dar valor à vida e querer levá-la ao máximo.
E foi então que me questionei: porquê? Porque é que tudo começou? O que me levou a acreditar fielmente que, ao respirar, estava a tirar o lugar a outrem?
Um rapaz. Ou melhor, um miúdo. Um coração partido não é só psicológico. Afeta tanto o corpo como a mente e eu descobri isso da pior maneira. Sabia tudo sobre ele, sabia onde estaria, como pensava, até sabia o que ia dizer, mesmo antes de dizê-lo! Talvez estivesse mais perto de obsessão do que de amor, mas a mente prega partidas e não tenho como o saber. Todo o meu conhecimento dessa altura baseia-se na simples realização que dedicava corpo e alma a este miúdo porque o amava. Se queres que alguém te odeie, quebra a sua confiança. Despedaça-lhe o coração em mil bocados e não expliques porquê. É a dúvida, o não saber porquê que te leva à loucura e ao querer terminar tudo. Sim, porque se a dúvida leva navegantes na busca de descobrimentos, esta será certamente de dupla face e remeterá igualmente para a alienação mental...

sábado, 11 de outubro de 2014

A "poeta" em mim



 As peripécias de amar

Amar é sacrificares-te por pouco,
Perseguires um ideal sem pés nem cabeça, feito louco.
Como se todo o teu trabalho valesse de algo,
Como se fosses coroado fidalgo
Por amares, do teu lado apenas a sorte,
Contra ti a morte.
Amar dói e doer é amar,
Mas não é preciso sacrificar
Tudo o que tens pela mentira.
Quem sabe, talvez um dia,
Saibas o verdadeiro significado do amor.
Só peço que não sucumbas à dor
De tentar demasiado, sem nenhum resultado,
Como se fosse tudo dado de mão beijada.

domingo, 28 de setembro de 2014

Puzzle Inacabado

Sinceramente, peço desculpa pela demora, esta coisa de virar maior de idade e entrar na faculdade dá muito trabalho, mas vou tentar escrever com mais frequência! Beijinhos.
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A verdade é que tudo na vida é confuso. Não podes propriamente encontrar uma resposta para as tuas ínfimas perguntas num canto qualquer como se aparecessem por magia. Quando tens a possibilidade de ter tudo no sítio, aparece-te uma dúvida. Quem és tu? A definição do teu "eu" é ainda mais confusa que a vida em si. 
Nascer de uma família tão exigente nunca me deu muita margem de manobra para pensar no que queria ser, mas sim mais no que tinha de ser. Tinha que coincidir todas as expetatitvas de uns pais que tudo querem e tudo podem (não que isso fosse propriamente um aspeto negativo, ensinaram-me que nem tudo é à nossa maneira, há momentos para insubordinação tal como os há de obedecer). Sempre achei que a lua não era assim tão distante, que tudo era alcançável quando se sonha em grande. E a minha definição acabou por ser a de sonhadora. Quando as coisas corriam para o lado errado, o sonho era a minha escapatória. "Hei-de ser alguém, fazer a diferença e influenciar os que me rodeiam." Agora parece-me o maior cliché que já ouvi, mas uma criança ainda não conhece o mundo.
Passei por tantas definições ao longo do tempo: a confiante, a tímida, a amiga e a rapariga de coração partido; que, pelo caminho, perdi a verdadeira definição de quem era... Sou uma rapariga, apenas isso. Sonho, desiludo, erro (mesmo que por estupidez), apaixono-me e caio de cara, procuro o conforto de outros na minha vida e preocupo-me com tudo e todos. Por mais vezes que erre, serei humana na mesma e continuarei a cometer atrocidades (a meu ver) que seriam possíveis evitar, mas nunca o mesmo erro duas vezes. Não me posso designar a mim mesma de um adjetivo que qualifica uma tão pequena parte de mim! Eu sou um todo, confuso e talvez complexo (até eu me acho incoerente), mas serei, sem dúvida, um puzzle com tantas peças que a minha definição está ainda por definir!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A cambalhotar pelo futuro

Para onde vou? O que quero eu da vida? Estas perguntas misantropas que preenchem a vida humana são uma porcaria. Podia procurar um adjetivo mais visualmente apelativo mas, verdades sejam ditas, porcaria é uma palavra que bem caracteriza a minha indecisão relativa à vida.
Sempre tive uma ideia bastante definida em relação ao que queria do meu futuro, porém, com o passar do tempo, essa ideia foi-se moldando noutra e por aí em diante. De momento, a ideia nada tem a ver com a conceção inicial de ser uma médica pediatra rodeada de bebés rechonchudos e doenças estranhas.
Sou como me apresento - uma rapariga um tanto anormal, comparando com a convenção de uma pessoa do sexo feminino perto da maturidade. Os meus sonhos foram despedaçados pela cruel realidade que se calhar não sou assim tão inteligente quanto os meus pais sempre me levaram a crer. Os nossos pais estão cá para nos encorajar a ambicionar alto, a querer voar e não parar por aí. No entanto, chega uma altura em que temos que saber desistir (guardar as asinhas no armário), admitir os nossos defeitos e aceitá-los como parte de nós. Tive o azar (ou assim o considero) de não ser uma das felizes afortunadas a gostar de estudar. Pegar em livros de Química invoca o sono em mim, já para não falar em Matemática, que conjura os meus demónios mais furiosos quando chego a um impasse. Portanto, nunca me considerei sábia, mas a minha curiosidade por alguns tipos de conhecimento sempre me levou a pensar que talvez chegasse longe. Enganei-me a mim e aos grandes detentores de orgulho caso eu tivesse sucesso - a minha mãe e o meu pai. 
A minha veia de escritora levou-me quase literalmente a digerir livros ao pequeno almoço, mas romances não ensinam nada muito concreto, para além da ocasional anatomia. Não que o meu amor pela leitura não tenha dado frutos! Oh, se deu! Passei Português com uma perna atrás das costas, só que isso não ajuda muito quando o curso se baseia em matemáticas em vez de letras...
Isto tudo para dizer que o comboio que o meu futuro está a tomar descarrilou há uns tempos, mas que voltou à linha assim que chegaram mecânicos que recuperassem o caminho.
Continuo sem saber bem o que quero. Enfermagem acabou por entrar numa das paragens do comboio e ficar, sem eu dar muito caso. O futuro é um poço em que desconhecemos o fundo e para o qual nos temos de atirar de cabeça. Pois bem, vou tentar atirar-me e fazer o pino pela viagem, só para tornar as coisas mais interessantes.

domingo, 10 de agosto de 2014

Self confidence



Esquecer alguém é difícil, nunca esqueces mesmo os seus pequenos tiques ou até a sua maneira de escrever uma mensagem. Mas é verdade que o tempo tudo cura ou, se não cura, realmente ajuda.
Começas-te a esquecer do cheiro da roupa dele, da sua entoação a dizer palavras do quotidiano, até mesmo do seu corpo, se é esguio ou não. Há memórias que permanecem, mas quanto mais pensas nelas, mais as alteras e esqueces pormenores que outrora estavam frescos na tua memória.
Recomeças a dar-te o valor que realmente mereces. A tua confiança volta a crescer e inicias o processo de reparar que o ditado de "há mais peixe no mar" sempre foi verdade desde o início.
No espelho, já não pareces exageradamente gorda ou magra, notas que até adquiriste uma cor agradável durante o verão e que as pessoas à tua volta também notaram. Os elogios que te dão já são bem recebidos, não entram em ouvidos moucos. Até os teus amigos reparam que o teu sorriso verdadeiro finalmente decidiu sair do armário e conquistar o mundo. 
Há mais peixe no mar como há mais sorrisos maravilhosos e olhos encantadores. Há risos mais bonitos, há personalidades mais apelativas, há mais! E esse simples facto, o chegar a esta idealização, é a recuperação da perda.
Para quê andar pelos cantos à espera que o que foi, volte? Tudo o que sobe tem de descer, mas nem tudo o que vai, volta. Está na hora de ver as coisas com outros olhos. Olhos que não tão cedo estarão cravejados de lágrimas porque se o sorriso veio, veio para ficar.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Infelizmente, é um adeus.

Pareceu a viagem mais longa da minha vida. O rádio não foi ligado nem uma vez, à falta de necessidade do mesmo. Não havia qualquer melodia que fosse suavizar a dor presente nos nossos corações. Parámos apenas duas vezes: a primeira numa farmácia porque os nervos da minha mãe a impediam de continuar e a segunda num café, para saciar a pouca fome existente, onde os nervos da minha mãe atrapalharam novamente. 
Vi-a chorar no carro enquanto esperava por nós. Ela estava de luto, mas lutar não parecia, de longe, o que queria fazer. Quebrou-me o coração vê-la chorar novamente quando retomámos viagem, com os seus óculos de sol postos. Por mais que ela o planeasse, nunca seria capaz de esconder o seu sofrimento de mim. Os óculos podiam ocultar isso para muita gente, mas eu sabia que o que ela estava a sentir era forte demais para manter cá dentro e conheço-a melhor que ninguém.
O meu pai manteve-se calmo. A minha mãe precisava de alguém que funcionasse como a voz da razão e ele desempenhou bem o papel. Foi a única altura em que a sua frieza foi benvinda. Eu permaneci calada, observando tudo à minha volta numa tentativa inútil de substituir os meus pensamentos de morte por outros mais agradáveis, mas nada parecia ajudar. Como apoio emocional, eu era uma lástima. Estava tão perdida quanto ela porque sofria por duas: a morte da minha querida avó e o terror e desolação da minha mãe. Quem me dera ter tido respostas para todas as perguntas retóricas que ela atirava ao ar durante o choro, ou só às minhas sequer.
Senti-me como pedra quando recebi a notícia, não sabendo bem o que fazer ou dizer. Parecia-me tudo mentira, uma piada de mau gosto. Mas ninguém brinca com a morte. Como disse, foi a viagem mais longa da minha vida...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Teatro ao Vivo



Aqui vai outro texto mais antigo, já com um anito e qualquer coisa e que, no entanto, leva-me a pensar tanto quanto levava na altura em que o escrevi.

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Às vezes apetece-me parar. Não ligar minimamente ao que me rodeia. Olho à volta e está tudo em "stand-by". Vejo uma criança a soprar bolhas de sabão e um casal de mãos dadas. Revejo-me na inocência da criança, ocupada com uma tarefa tão simples, e no casal, que parece quase perfeito (é pena não passar tudo duma ilusão ótica). Não tenho inveja, mas admiro a descontração absoluta de ambos os cenários.
Em contraste, ali estou eu. Com todas as preocupações do mundo. Não paro de pensar em como tudo está errado. Mas quero parar, apetece-me parar.
O resto do mundo à minha volta conversa alegremente, com gargalhadas triunfantes. Fico desanimada, mas não o demonstro. Nada nesse momento me faz sorrir. Eu quero parar!
E, de repente, o mundo continua com o seu próprio ritmo. As bolhas elevam-se rapidamente no ar e o casal partilha um terno beijo.
Inquietude prolongada. Sinto-me assim parece que há eternidades. Não me recordo de como voltar a ser "normal". Este não querer ser assim e, ao mesmo tempo, não querer mudar, consome-me.
As gargalhadas continuam, quase que fortes demais, como se me quisessem rebentar os tímpanos com a sua intensidade. Não gozam comigo... nem me glorificam.
Chega de me sentir mal. Continuo a sorrir, embora sem emoção. Há muito que não dou uma bela gargalhada sentida. Pratico o sorriso como se as cortinas de um palco estivessem prestes a subir. Nem o espelho é meu amigo: mostra-me um rosto cansado e taciturno. Eu sei que todos os que me rodeiam praticam tanto quanto eu. Tudo é uma infinita peça de teatro. Porém, ninguém recebe créditos de autoria, ninguém os quer. Então, mas que mundo é este? Seja qual for, não é permanente.
E, inesperadamente, as bolhas rebentam quando eu acordo para a realidade. Ninguém se importa porque este inferno tem o seu fim.

sábado, 19 de julho de 2014

Culpada

Lamento. Ignorei o problema quando ele estava tão presente. Podia até culpar a minha juventude e a falta de sabedoria ou discernimento adjacentes à minha idade, mas nada disso perdoa o que fiz. Não estava lá por ti e lamento com todas as minhas forças. Custa-me ver o teu sofrimento num momento destes. Estás presente em tantas memórias da minha vida, acompanhaste o meu crescimento ao longo destes quase 18 anos e ajudaste-me a ser quem sou. E, no entanto, fui cobarde e, quando podias estar nos teus últimos dias, enchi-me de medo e esperei pelo melhor. 
É verdade que nada podia fazer senão rezar (mesmo que não acredite num Deus) para que recuperasses depressa, mas continuar com a minha vida como se nada fosse foi um dos piores erros da minha vida e tenho que viver com isso.
Hoje visitei-te. Acredito que nem saibas que lá estive, apesar de te observar por mais de uma hora. Mas não importa, segurei a tua mão, acariciei a tua linda face cravada de rugas e sussurrei-te ao ouvido o que acredito ser verdade: é só mais uma fase. Passaste por tanto e não é isto que te vai desmoronar. Eu sei que a idade não perdoa, mas quem diria que chegarias tão longe sequer. É por isso que não vou perder a esperança que tenho na tua recuperação.
Doeu-me por dentro ver como estavas. O teu lutar por formar palavras e não conseguires, a dificuldade em respirar, a constante súplica gestual para te tirarem dali. Pior era não poderes ver com os maravilhosos olhos com que nasceste.
Era nestes momentos que queria acreditar em algo superior a mim mesma. Acreditar que Deus tem o teu caminho traçado e que tudo ficará bem. Mas não acredito e a única coisa que posso fazer é esperar. Como odeio esperar! Eu quero-te bem! Quero que vivas mais 88 anos se for preciso! Quero que estejas lá no dia do meu casamento ou que conheças os meus filhos... Eu sei que é pedir muito, já não sou a criança que viste crescer e muito menos ignorante. E é egoísta da minha parte, mas não podes ir embora agora! Preciso de ti, não estou preparada para não te ter na minha vida.
Por isso, força avó! Eu adoro-te.