terça-feira, 24 de março de 2015

Changes

Tenho medo da mudança. Pronto, finalmente disse-o. Tenho medo de não poder controlar as coisas mais importantes. E, principalmente, que nunca consiga chegar às minhas próprias expetativas. Agora que vejo, tenho medo de quase tudo. Mas uma coisa que não sou é burra. Não vou deixar que um medo irracional (ou não tanto assim) me trave. Eu vivo com medo, mas sobrevivo com ele também. Não me vou deixar negar as coisas mais simples e bonitas da vida. Às vezes mudança é mesmo o que preciso. A fase inicial é difícil pela sensação de que aderir à mudança é um processo doloroso e demasiado repentino.
O medo não me trava uma coisa: ir atrás do que quero. E eu sei perfeitamente o que quero neste momento. E, mais cedo do que mais tarde, vai ser meu.

sábado, 14 de março de 2015

Lisboa a entranhar

O sol quente batia-me nos olhos, cegando-me para a vida. Estava um calor abrasador com sabor a verão. Esperava impacientemente na paragem de autocarro. 9 minutos para o 68. 9 minutos parecia-me uma eternidade. Comecei a olhar para a calçada que me rodeava na esperança que assim o sol não me magoasse tanto os olhos. O calor parecia chamar todos os pombos das redondezas, com a árdua tarefa de procurar migalhas por entre o lixo lisboeta. Olhei com curiosidade para um pombo que coxeava. Não podia deixar de sentir pena, mesmo pela ave considerada a praga das pragas da cidade. Tinha um coxear estranho, mais do que apenas uma pata partida concerteza. Fixei o olhar nos altos e baixos que a pobre ave dava. Faltava alguma coisa. Foi aí que vi. O pombo não tinha duas patas, mas sim um coto no lugar da pata esquerda. Mesmo assim, apoiava-se no coto como se se tratasse dum apoio totalmente normal.
Aquele pombo podia ter desistido da vida e definhado, esperando a morte sossegado no seu cantinho. E, apesar disso, não o fez. A ferida sarou com o tempo e o pombo continuou na sua procura de alimento. Custa-me a crer que seja apenas instinto. Talvez não tenha desistido porque algo o fez resistir às adversidades que encontrou. Tudo o que sei é que este pombo me ensinou uma lição de vida. Até quando falta algo, vamos ter sempre a possibilidade de continuar. É só deixar o tempo curar as feridas e continuar com o nosso "coto" como se fosse tudo normal.
Acabei por apanhar o 01 e não o 68. Dei uma volta muito maior que o costume, e, ainda assim, não me arrependi minimamente. Observei a luz solar que me banhava pelas janelas do autocarro, os prédios que passavam de ricos a pobres em meros metros e o ocasional Porsche. A verdade é que não podemos pedir mais do que temos, ou fantasiar vidas que não são nossas. Há que aceitar as adversidades e procurar as pequenas dádivas que nos são oferecidas. Sonhar com o impossível? É muito bonito no papel, mas na realidade, tudo muda.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Her



Os comentários queimam na pele como brasas acesas. Ela não pensa antes de falar, nunca pensou. É quase coisa de criança e não de quem devia ter mais maturidade para discernir o que é apropriado ou não de atirar à minha cara. Dói como nenhum outro comentário antes doía. Desta vez atingiu a parte sensível. Não fiquei de ouvidos moucos nem me abstraí da conversa como sempre tenho a mania de fazer (é mais fácil desligar quando ela fala pelos cotovelos, costumo até acenar como se estivesse verdadeiramente interessada, atirar ao ar uns “sins” ou “nãos” e concordar com coisas que provavelmente não concordo mesmo nada). Talvez isto soe algo insensível, mas há pessoas que abusam da nossa paciência e sempre ouvi dizer que “o melhor remédio é ignorar”.
Senti o comentário rasgar o meu coração como uma faca que corta manteiga. “Desta vez foi longe demais”, digo a mim mesma, “desta vez não perdoo”. Mas sei que isso é mentira. Considero o feito infantilidade dela, considero que a culpa não pode ser dela de ser tão irracional neste aspeto. Desculpo-a mesmo sem dar conta. Ela não merece, eu sei que não. Pelas vezes que fui esfaqueada verbalmente, já eu estaria psicologicamente morta. Mas eu ignoro, ela própria me ensinou isso. Olho para ela, em perfeito silêncio, com um olhar fulminante que a quer queimar tanto como ela me queimou a mim. Ah, se merecia… Mesmo assim, não posso. É ela, ela tem sempre desculpa, ela não tem culpa de nada. Sei que no fundo tem. Não é uma miúda, sabe que o que diz tem consequências. Mas talvez não saiba quais? Eu perdoo novamente. Vou considerar que é uma criança. Mais nova que eu, 6 anos talvez, não sabe o que faz. Deus sabe que age como uma. Uma criança que criou uma criança.
Nestes momentos, em que me sinto sem qualquer poder é que percebo como a vida é injusta. Vai haver sempre alguém melhor que tu em tudo, alguém que mande em ti, alguém que te odeia, alguém que te quer ver no fundo do poço. Principalmente, vai haver alguém que duvida inteiramente de ti. O meu conselho é: manter a calma. Sim, é difícil e quase impossível. Claro que vai custar, é mais simples mandar alguém pastar do que acalmar, mas tu consegues.
Esta minha criança é alguém que se ofende facilmente, com ela ganhei o dom da paciência. Não posso simplesmente ser má para ela: ela merece e, ao mesmo tempo, não merece. Eu sei que os comentários vão continuar a sair daquela boca amargurada pelos anos. E também sei que me vão continuar a magoar. Tudo porque eu a amo. O que ela pensa de mim importa. Mas se sobrevivi até agora, tudo é possível. Talvez ela mude um dia e, novamente, talvez não…

http://imguol.com/c/entretenimento/2014/11/12/mae-e-filha-adolescente-discutindo-1415798602894_615x470.jpg

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ingenuidades

Desde que me lembro, sempre foi assim. A frieza com que me tratava e ainda hoje trata faz parte das minhas lembranças. Julgava que algumas memórias se tinham apagado com o tempo, mas, ao ouvir desabafos alheios que me soam como familiares, fico quieta, pensativa, magoada... Não que os problemas dos outros me magoem, sempre permaneci passiva, tentando consolar conforme a necessidade da pessoa, no entanto, relembrar-me do que ficou alojado num pedaço da minha memória, trancado a sete chaves, invoca em mim a maior das dores. Confesso que não sei o que é ter uma infância normal. A minha família sempre pareceu fugir à regra. Mas julgava que nunca me iria afetar, eu não ia deixar. Estas são daquelas promessas que fazemos a nós próprios apesar de sabermos que nunca se vão cumprir. Chorei quando era criança e ainda hoje choro, de garganta apertada, tal como há 9 anos atrás. Queria passar-lhes corretor por cima, impedir de me rasgarem por dentro quando me lembro. Quero ter mais força que todos os gritos, discussões, ameaças, tremores, choros de noite inteira. Quero ter mais força que ele. Pará-lo, impedi-lo de me desiludir novamente. Ele não tem esse direito, tal como nunca ninguém terá até ao fim da minha existência. 
Muitas noites desejei que ele fosse embora. Desejei com tanta força que acabou por se tornar verdade. Foi-se e eu não senti nada. Apenas dei conta que o tempo parou. Tudo à minha volta estava imóvel, nada se mexia. À minha frente estava uma mulher, deitada numa cama de casal, sem fome, sem sono, quase sem respiração. Chorava como uma Madalena, incapaz de ver o seu rumo na vida. Tinha vinte quilos a menos e umas bochechas côncavas, lembro-me como se fosse ontem. A mim não me fazia qualquer sentido ela chorar por ele, por ele ter desistido de tudo e ido embora. Para mim era uma benção, para ela - a morte. E não havia maior coisa neste mundo do que o meu amor por ela. Absolutamente nada. Então, resolvi as coisas. Fiz a única coisa que sabia que o traria de volta e que, ao mesmo tempo, me tiraria todo o meu orgulho. 
Ele voltou, sempre soube que voltaria. De falinhas mansas, comprando afetos. Não foi muito tempo depois que ele voltou ao normal. Frio, insensível, ameaçador e odiável. Nunca comprou o meu afeto nem o meu respeito. Apesar de tudo isso ser o que sinto, não consigo evitar chorar quando penso no que ele é para mim. Enquanto criança, de brilhozinho no olho e ingénua, acreditava que era suposto ser assim, talvez acreditasse também que gostava dele. Oh, como gostava de voltar à ignorância e às discussões de porta fechada. Queria ter sido criança para sempre. Mas a vida não é só feita de vontades...

domingo, 21 de dezembro de 2014

Passar a palavra

Curioso como estar do outro lado dá uma perspetiva totalmente nova da vida. Não ser o coração partido, mas sim aquela que reconforta quem o tem em pedaços. Gostava de poder fazer mais. Mostrar o quanto tudo pode ser destruído e reconstruído as vezes que quisermos. Somos humanos e não haverá, com certeza, espécie mais persistente que o teimoso do ser humano. Desejava poder extrair as minhas memórias e colocá-las num DVD, permitir que outros as vissem, em prol da aprendizagem. Não que eu, sendo uma recente maior de idade, tenha muito para ensinar, mas acho que sempre tentei ver o lado positivo das coisas e prosperar, em vez de ficar à espera daquilo que pode demorar eternidades e mesmo nem vir. Não me cabe na cabeça o facto de as pessoas ficarem à espera de tudo. Está bem que cada um é como foi ensinado e educado ao longo dos anos da sua existência, só que fico confusa como podem permanecer quietos e ver tudo ruir lentamente. Há que trabalhar porque, por mais cliché que seja, nada se faz sem esforço. Dinheiro não compra corações, só avarezas.
Queria poder incendiar todos os corações à minha volta como o meu está, em chamas. Amava ligar a luz, que se acendeu na minha mente, a todos os outros que se encontram apagados. Não há como descrever este sentimento de plenitude, de que tudo está bem e que assim ficará. Nada é eterno, é estúpido pensar dessa forma, porém esse tipo de segurança, calor e carinho, é o combustível para os nossos corpos singelos que, sem isto, não têm vida. Queria mostrar como é possível esquecer, ainda que não completamente, cenas e cenários que fazem parte deste teatro infernal que é a vida. Não é tudo meloso como um conto de fadas, há discussões e mais discussões, turras, maus momentos... E, no entanto, não posso dizer que isso seja, de todo, algo mau! Porque é com o fazer as pazes que nos tornamos tão mais unidos, tão mais conhecedores um do outro, tão mais percetíveis de quem nós próprios somos. É díficil perdoar e ainda mais ser perdoado, mas tudo isso se aprende com uma relação que quer funcionar.
Amo os pequenos momentos de sorrisos que tudo dizem, de olhares que falam por si próprios, de silêncios que gritam mais que a própria voz. O amor é uma coisa estranha e nunca é perfeito. Claramente, a perfeição ficou à porta quando este foi feito. E, mesmo assim, se não fosse o amor, a vida não tinha significado nenhum. Digam isso aos eremitas que nunca conheceram o que é viver.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas

Perdi tempo a pensar no passado. Sim, eu sei, coisa que nunca devia ter feito mas, com tantas mudanças a ocorrer à minha volta, queria pensar naquilo que nunca mudará porque já lá foi e não volta certamente. Psicologia e a maldita professora de voz esganiçada levou-me a pensar nisso. "Para as mais emocionadas com o filme que vimos, o que vos levou a esse estado, que lembranças vos trouxeram?" Para quem não sabe, sou a pior no que toca a momentos tristes retratados virtualmente. É-me completamente impossível não chorar durante uma morte ou um momento mais intenso num patético filme que de nada tem realístico. "O estranho caso de Benjamin Button" levou-me aos apertos na garganta e a umas quantas lágrimas que me escorreram pela cara. Estúpido, não é? 
Pensei na pergunta dela. O que realmente me levou a chorar foi a identificação com o sentimento de perda. Como é destroçante perder alguém porque a vida assim o dita, mesmo tendo vivido e experienciado tanto. Curiosamente, a primeira pessoa que me veio à mente foi o meu avô. Estranhei já que a perda da minha avó não foi assim há tanto tempo quanto isso. E é agora, mais do que nunca, que valorizo a sua existência na minha vida e o quanto lamento não ter podido aprender mais com ela, nos seus tempos mais frutíferos e conscientes.
Faz quase 10 anos desde que o meu avô faleceu. E há 10 anos atrás, tudo mudou. Ele era, e sempre será, tão importante para a minha família e para mim que a sua perda foi o mesmo que perder um pai. Pessoa mais simpática e de bom espírito não conheci, infelizmente. E eu era tão nova quando o perdi que não devia ter assim tantas lembranças dele e, no entanto, tenho. Ele marcou-me fortemente, tal como à minha mãe, que não consegue falar da sua partida sem se emocionar.
Durante muito tempo, rezei para que voltasse. Que fosse tudo mentira, a sua ida sem retorno, a não despedida final, o que ficou por dizer... Ainda hoje desejo que volte. Mas partiu calmamente ou pelo menos espero que sim.
Tudo o que ele foi é um exemplo para mim. Tudo o que quero ser baseia-se nele. O meu carinho ficará para sempre guardado para ser retribuído, como ele fez por nós. 
As mudanças dão que pensar. Julgar-se-ia que com o ruído de fundo de Lisboa, não houvesse espaço para interiorizar nada, mas a verdade é que é precisamente o contrário. Lisboa não me acolheu calorosamente como um avô, mas não importa, hei-de acolhê-la eu, no meu coração. Ou partirei a tentar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Natal dos bolsos rotos

Com o chegar do Natal, a minha falta de entusiasmo deprime-me. Talvez seja porque, sendo uma altura de tantos gastos e eu com os bolsos rotos, não possa fazer grande festejo e isso me desiluda. Não se deixem enganar, as luzes românticas espalhadas pelas duas cidades que vejo constantemente ainda me apaixonam de tal forma que paro na rua só para pasmar, de olhar fixo no brilho caloroso (e que de quente nada tem) que tanto me atrai. Os vermelhos, verdes e dourados dão aquele arzinho de festa que tanto amo mas, verdade seja dita, "no money, no funny" (aqui à grande e à inglesa). 
O melhor do Natal talvez não seja apenas as prendas em si, mas também a comida que cresce água na boca só de pensar. O belo do camarão cozido e o bolo-rei à vontade do freguês... No entanto, todos estes elementos só estão presentes com uma carteira recheada, que do bom camarão e bolo-rei decente, sei eu o quanto custa! 
É triste uma época natalícia tão pobre em fartura, infelizmente a época das vacas gordas já lá vai há muito. E, apesar da muita falta de tudo (até da de espírito), não vai faltar a família, a sempre presente família que, nos altos e baixos, arranja sempre um pouco de alegria para me fazer o dia. Estar longe de casa traz saudade até à mais fria das pessoas e a realidade é que sinto falta de todos estes miminhos e ocasiões especiais. Que o Natal venha depressa e para todos, os que se encontram como eu e os afortunados também, feliz festas!