sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ingenuidades

Desde que me lembro, sempre foi assim. A frieza com que me tratava e ainda hoje trata faz parte das minhas lembranças. Julgava que algumas memórias se tinham apagado com o tempo, mas, ao ouvir desabafos alheios que me soam como familiares, fico quieta, pensativa, magoada... Não que os problemas dos outros me magoem, sempre permaneci passiva, tentando consolar conforme a necessidade da pessoa, no entanto, relembrar-me do que ficou alojado num pedaço da minha memória, trancado a sete chaves, invoca em mim a maior das dores. Confesso que não sei o que é ter uma infância normal. A minha família sempre pareceu fugir à regra. Mas julgava que nunca me iria afetar, eu não ia deixar. Estas são daquelas promessas que fazemos a nós próprios apesar de sabermos que nunca se vão cumprir. Chorei quando era criança e ainda hoje choro, de garganta apertada, tal como há 9 anos atrás. Queria passar-lhes corretor por cima, impedir de me rasgarem por dentro quando me lembro. Quero ter mais força que todos os gritos, discussões, ameaças, tremores, choros de noite inteira. Quero ter mais força que ele. Pará-lo, impedi-lo de me desiludir novamente. Ele não tem esse direito, tal como nunca ninguém terá até ao fim da minha existência. 
Muitas noites desejei que ele fosse embora. Desejei com tanta força que acabou por se tornar verdade. Foi-se e eu não senti nada. Apenas dei conta que o tempo parou. Tudo à minha volta estava imóvel, nada se mexia. À minha frente estava uma mulher, deitada numa cama de casal, sem fome, sem sono, quase sem respiração. Chorava como uma Madalena, incapaz de ver o seu rumo na vida. Tinha vinte quilos a menos e umas bochechas côncavas, lembro-me como se fosse ontem. A mim não me fazia qualquer sentido ela chorar por ele, por ele ter desistido de tudo e ido embora. Para mim era uma benção, para ela - a morte. E não havia maior coisa neste mundo do que o meu amor por ela. Absolutamente nada. Então, resolvi as coisas. Fiz a única coisa que sabia que o traria de volta e que, ao mesmo tempo, me tiraria todo o meu orgulho. 
Ele voltou, sempre soube que voltaria. De falinhas mansas, comprando afetos. Não foi muito tempo depois que ele voltou ao normal. Frio, insensível, ameaçador e odiável. Nunca comprou o meu afeto nem o meu respeito. Apesar de tudo isso ser o que sinto, não consigo evitar chorar quando penso no que ele é para mim. Enquanto criança, de brilhozinho no olho e ingénua, acreditava que era suposto ser assim, talvez acreditasse também que gostava dele. Oh, como gostava de voltar à ignorância e às discussões de porta fechada. Queria ter sido criança para sempre. Mas a vida não é só feita de vontades...

domingo, 21 de dezembro de 2014

Passar a palavra

Curioso como estar do outro lado dá uma perspetiva totalmente nova da vida. Não ser o coração partido, mas sim aquela que reconforta quem o tem em pedaços. Gostava de poder fazer mais. Mostrar o quanto tudo pode ser destruído e reconstruído as vezes que quisermos. Somos humanos e não haverá, com certeza, espécie mais persistente que o teimoso do ser humano. Desejava poder extrair as minhas memórias e colocá-las num DVD, permitir que outros as vissem, em prol da aprendizagem. Não que eu, sendo uma recente maior de idade, tenha muito para ensinar, mas acho que sempre tentei ver o lado positivo das coisas e prosperar, em vez de ficar à espera daquilo que pode demorar eternidades e mesmo nem vir. Não me cabe na cabeça o facto de as pessoas ficarem à espera de tudo. Está bem que cada um é como foi ensinado e educado ao longo dos anos da sua existência, só que fico confusa como podem permanecer quietos e ver tudo ruir lentamente. Há que trabalhar porque, por mais cliché que seja, nada se faz sem esforço. Dinheiro não compra corações, só avarezas.
Queria poder incendiar todos os corações à minha volta como o meu está, em chamas. Amava ligar a luz, que se acendeu na minha mente, a todos os outros que se encontram apagados. Não há como descrever este sentimento de plenitude, de que tudo está bem e que assim ficará. Nada é eterno, é estúpido pensar dessa forma, porém esse tipo de segurança, calor e carinho, é o combustível para os nossos corpos singelos que, sem isto, não têm vida. Queria mostrar como é possível esquecer, ainda que não completamente, cenas e cenários que fazem parte deste teatro infernal que é a vida. Não é tudo meloso como um conto de fadas, há discussões e mais discussões, turras, maus momentos... E, no entanto, não posso dizer que isso seja, de todo, algo mau! Porque é com o fazer as pazes que nos tornamos tão mais unidos, tão mais conhecedores um do outro, tão mais percetíveis de quem nós próprios somos. É díficil perdoar e ainda mais ser perdoado, mas tudo isso se aprende com uma relação que quer funcionar.
Amo os pequenos momentos de sorrisos que tudo dizem, de olhares que falam por si próprios, de silêncios que gritam mais que a própria voz. O amor é uma coisa estranha e nunca é perfeito. Claramente, a perfeição ficou à porta quando este foi feito. E, mesmo assim, se não fosse o amor, a vida não tinha significado nenhum. Digam isso aos eremitas que nunca conheceram o que é viver.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas

Perdi tempo a pensar no passado. Sim, eu sei, coisa que nunca devia ter feito mas, com tantas mudanças a ocorrer à minha volta, queria pensar naquilo que nunca mudará porque já lá foi e não volta certamente. Psicologia e a maldita professora de voz esganiçada levou-me a pensar nisso. "Para as mais emocionadas com o filme que vimos, o que vos levou a esse estado, que lembranças vos trouxeram?" Para quem não sabe, sou a pior no que toca a momentos tristes retratados virtualmente. É-me completamente impossível não chorar durante uma morte ou um momento mais intenso num patético filme que de nada tem realístico. "O estranho caso de Benjamin Button" levou-me aos apertos na garganta e a umas quantas lágrimas que me escorreram pela cara. Estúpido, não é? 
Pensei na pergunta dela. O que realmente me levou a chorar foi a identificação com o sentimento de perda. Como é destroçante perder alguém porque a vida assim o dita, mesmo tendo vivido e experienciado tanto. Curiosamente, a primeira pessoa que me veio à mente foi o meu avô. Estranhei já que a perda da minha avó não foi assim há tanto tempo quanto isso. E é agora, mais do que nunca, que valorizo a sua existência na minha vida e o quanto lamento não ter podido aprender mais com ela, nos seus tempos mais frutíferos e conscientes.
Faz quase 10 anos desde que o meu avô faleceu. E há 10 anos atrás, tudo mudou. Ele era, e sempre será, tão importante para a minha família e para mim que a sua perda foi o mesmo que perder um pai. Pessoa mais simpática e de bom espírito não conheci, infelizmente. E eu era tão nova quando o perdi que não devia ter assim tantas lembranças dele e, no entanto, tenho. Ele marcou-me fortemente, tal como à minha mãe, que não consegue falar da sua partida sem se emocionar.
Durante muito tempo, rezei para que voltasse. Que fosse tudo mentira, a sua ida sem retorno, a não despedida final, o que ficou por dizer... Ainda hoje desejo que volte. Mas partiu calmamente ou pelo menos espero que sim.
Tudo o que ele foi é um exemplo para mim. Tudo o que quero ser baseia-se nele. O meu carinho ficará para sempre guardado para ser retribuído, como ele fez por nós. 
As mudanças dão que pensar. Julgar-se-ia que com o ruído de fundo de Lisboa, não houvesse espaço para interiorizar nada, mas a verdade é que é precisamente o contrário. Lisboa não me acolheu calorosamente como um avô, mas não importa, hei-de acolhê-la eu, no meu coração. Ou partirei a tentar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Natal dos bolsos rotos

Com o chegar do Natal, a minha falta de entusiasmo deprime-me. Talvez seja porque, sendo uma altura de tantos gastos e eu com os bolsos rotos, não possa fazer grande festejo e isso me desiluda. Não se deixem enganar, as luzes românticas espalhadas pelas duas cidades que vejo constantemente ainda me apaixonam de tal forma que paro na rua só para pasmar, de olhar fixo no brilho caloroso (e que de quente nada tem) que tanto me atrai. Os vermelhos, verdes e dourados dão aquele arzinho de festa que tanto amo mas, verdade seja dita, "no money, no funny" (aqui à grande e à inglesa). 
O melhor do Natal talvez não seja apenas as prendas em si, mas também a comida que cresce água na boca só de pensar. O belo do camarão cozido e o bolo-rei à vontade do freguês... No entanto, todos estes elementos só estão presentes com uma carteira recheada, que do bom camarão e bolo-rei decente, sei eu o quanto custa! 
É triste uma época natalícia tão pobre em fartura, infelizmente a época das vacas gordas já lá vai há muito. E, apesar da muita falta de tudo (até da de espírito), não vai faltar a família, a sempre presente família que, nos altos e baixos, arranja sempre um pouco de alegria para me fazer o dia. Estar longe de casa traz saudade até à mais fria das pessoas e a realidade é que sinto falta de todos estes miminhos e ocasiões especiais. Que o Natal venha depressa e para todos, os que se encontram como eu e os afortunados também, feliz festas!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Negociar o amor

Estar numa relação é o mesmo que começar um negócio, não que seja tão frio e banal como uma mera troca de oportunidades e dinheiro, mas começa como tal. Há o conhecer, saber que aquela oportunidade se encontra ao nosso alcance. A seguir, o projecto - neste caso, o sonho do que virá, a projeção de um futuro juntos. Logo depois dá-se o chamado empréstimo, precisas de dinheiro num negócio tal como precisas de amor numa relação. Quando a empresa começa, há altos e baixos, em que ganhas e perdes dinheiro numa velocidade alucinante, como uma montanha russa com todo o tipo de curvas e contracurvas. Essa empresa pode ter imenso sucesso e tornar-se multimilionária mas apenas com muito trabalho, muito investimento de lágrimas e suor, assim como dás tudo o que tens, corpo e alma, para aquele que o merece. Porém, nem sempre achamos um bom investimento, aliás, mais facilmente encontramos um buraco negro para o nosso dinheiro (suga tudo e não retribui) do que um negócio vitalício. Há que saber procurar, mas também há que ter alguns prejuízos antes de chegar ao sucesso. No entanto, assim que chegas à enorme satisfação de teres uma empresa que gere cada vez mais dinheiro, estás nas nuvens, a viver à grande (ou pelo menos sentes-te assim).
Estar numa relação é tanto o mesmo que começar um negócio como acabar uma relação é o mesmo que ir à falência... Perde-se tudo, mas o sonho continua lá.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Saber quando sair.



Perguntei-me a mim própria o porquê. Tantos à minha volta sofriam do mesmo mal. No mundo, não estava sozinha, mas cá dentro, no meu mais íntimo, sentia uma solidão e amargura desmesuradas. Parecia que o mundo me tinha virado as costas como se eu fosse um simples bicho de quem ninguém gostava. 
Ir às aulas, ou melhor, arrastar-me até às aulas, era um suplício. Ouvi meia dúzia de palavras como música de fundo (se é que foram tantas), enquanto pensava no fim (isto durante meses a fio). No fim de tudo, das aulas, dos amigos, da família. Será que as amigas notariam diferença, será que a mãe reagiria loucamente ou será que o irmão sentiria falta? 
Talvez um prédio alto resolvesse o assunto. Um passo em frente e mais ninguém sofria pela minha presença a mais no mundo. Ocupava espaço que poderia ser melhor usado por alguém que realmente o merecesse e quisesse. Talvez se tudo acabasse com o prédio!...
Mas... e a minha mãe? A minha fiel companheira nas horas de tristeza, nas horas de desabafo, nos choros de baba e ranho por rapazes que não mereciam atenção. E ela? Que seria feito da pessoa que dedicara toda a sua vida a providenciar amor e carinho, comida e abrigo para uma ingrata que se achava a mais na terra? Era injusto tirar-lhe um dos seus bens mais preciosos porque eu, uma miúda que ainda nada sabia do mundo, achava que estava na hora, que a viagem já se tornara demasiado longa, que era exatamente isso, apenas uma passageira nesta aventura e não alguém que quisesse visitar os pontos de interesse. 
O apetite voltou. Cada dentada a mais que comia do prato fazia emergir um sorriso da cara da minha mãe. "Estás a comer melhor!", dizia alegremente. Ossos e pele deram origem a carne, a consistência. Cada sorriso me tornava  mais forte, mais viva! Comprimidos e suplementos vitamínicos voltaram para a gaveta, para ficarem para sempre perdidos. Sentimentos de culpa e desolação afrouxaram para dar espaço a um sentido de humor, criado por boas companhias. Um sorrisinho aqui, uma gargalhada ali e fiquei a quase cem porcento do que era anteriormente. Nunca seria a mesma, feridas cicatrizam mas nunca desaparecem. Aprendi. Se se criou algo de bom desta experiência terrível, foi a aprendizagem. É preciso saber o que é querer morrer para dar valor à vida e querer levá-la ao máximo.
E foi então que me questionei: porquê? Porque é que tudo começou? O que me levou a acreditar fielmente que, ao respirar, estava a tirar o lugar a outrem?
Um rapaz. Ou melhor, um miúdo. Um coração partido não é só psicológico. Afeta tanto o corpo como a mente e eu descobri isso da pior maneira. Sabia tudo sobre ele, sabia onde estaria, como pensava, até sabia o que ia dizer, mesmo antes de dizê-lo! Talvez estivesse mais perto de obsessão do que de amor, mas a mente prega partidas e não tenho como o saber. Todo o meu conhecimento dessa altura baseia-se na simples realização que dedicava corpo e alma a este miúdo porque o amava. Se queres que alguém te odeie, quebra a sua confiança. Despedaça-lhe o coração em mil bocados e não expliques porquê. É a dúvida, o não saber porquê que te leva à loucura e ao querer terminar tudo. Sim, porque se a dúvida leva navegantes na busca de descobrimentos, esta será certamente de dupla face e remeterá igualmente para a alienação mental...

sábado, 11 de outubro de 2014

A "poeta" em mim



 As peripécias de amar

Amar é sacrificares-te por pouco,
Perseguires um ideal sem pés nem cabeça, feito louco.
Como se todo o teu trabalho valesse de algo,
Como se fosses coroado fidalgo
Por amares, do teu lado apenas a sorte,
Contra ti a morte.
Amar dói e doer é amar,
Mas não é preciso sacrificar
Tudo o que tens pela mentira.
Quem sabe, talvez um dia,
Saibas o verdadeiro significado do amor.
Só peço que não sucumbas à dor
De tentar demasiado, sem nenhum resultado,
Como se fosse tudo dado de mão beijada.