sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Partidas e chegadas

Perdi tempo a pensar no passado. Sim, eu sei, coisa que nunca devia ter feito mas, com tantas mudanças a ocorrer à minha volta, queria pensar naquilo que nunca mudará porque já lá foi e não volta certamente. Psicologia e a maldita professora de voz esganiçada levou-me a pensar nisso. "Para as mais emocionadas com o filme que vimos, o que vos levou a esse estado, que lembranças vos trouxeram?" Para quem não sabe, sou a pior no que toca a momentos tristes retratados virtualmente. É-me completamente impossível não chorar durante uma morte ou um momento mais intenso num patético filme que de nada tem realístico. "O estranho caso de Benjamin Button" levou-me aos apertos na garganta e a umas quantas lágrimas que me escorreram pela cara. Estúpido, não é? 
Pensei na pergunta dela. O que realmente me levou a chorar foi a identificação com o sentimento de perda. Como é destroçante perder alguém porque a vida assim o dita, mesmo tendo vivido e experienciado tanto. Curiosamente, a primeira pessoa que me veio à mente foi o meu avô. Estranhei já que a perda da minha avó não foi assim há tanto tempo quanto isso. E é agora, mais do que nunca, que valorizo a sua existência na minha vida e o quanto lamento não ter podido aprender mais com ela, nos seus tempos mais frutíferos e conscientes.
Faz quase 10 anos desde que o meu avô faleceu. E há 10 anos atrás, tudo mudou. Ele era, e sempre será, tão importante para a minha família e para mim que a sua perda foi o mesmo que perder um pai. Pessoa mais simpática e de bom espírito não conheci, infelizmente. E eu era tão nova quando o perdi que não devia ter assim tantas lembranças dele e, no entanto, tenho. Ele marcou-me fortemente, tal como à minha mãe, que não consegue falar da sua partida sem se emocionar.
Durante muito tempo, rezei para que voltasse. Que fosse tudo mentira, a sua ida sem retorno, a não despedida final, o que ficou por dizer... Ainda hoje desejo que volte. Mas partiu calmamente ou pelo menos espero que sim.
Tudo o que ele foi é um exemplo para mim. Tudo o que quero ser baseia-se nele. O meu carinho ficará para sempre guardado para ser retribuído, como ele fez por nós. 
As mudanças dão que pensar. Julgar-se-ia que com o ruído de fundo de Lisboa, não houvesse espaço para interiorizar nada, mas a verdade é que é precisamente o contrário. Lisboa não me acolheu calorosamente como um avô, mas não importa, hei-de acolhê-la eu, no meu coração. Ou partirei a tentar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Natal dos bolsos rotos

Com o chegar do Natal, a minha falta de entusiasmo deprime-me. Talvez seja porque, sendo uma altura de tantos gastos e eu com os bolsos rotos, não possa fazer grande festejo e isso me desiluda. Não se deixem enganar, as luzes românticas espalhadas pelas duas cidades que vejo constantemente ainda me apaixonam de tal forma que paro na rua só para pasmar, de olhar fixo no brilho caloroso (e que de quente nada tem) que tanto me atrai. Os vermelhos, verdes e dourados dão aquele arzinho de festa que tanto amo mas, verdade seja dita, "no money, no funny" (aqui à grande e à inglesa). 
O melhor do Natal talvez não seja apenas as prendas em si, mas também a comida que cresce água na boca só de pensar. O belo do camarão cozido e o bolo-rei à vontade do freguês... No entanto, todos estes elementos só estão presentes com uma carteira recheada, que do bom camarão e bolo-rei decente, sei eu o quanto custa! 
É triste uma época natalícia tão pobre em fartura, infelizmente a época das vacas gordas já lá vai há muito. E, apesar da muita falta de tudo (até da de espírito), não vai faltar a família, a sempre presente família que, nos altos e baixos, arranja sempre um pouco de alegria para me fazer o dia. Estar longe de casa traz saudade até à mais fria das pessoas e a realidade é que sinto falta de todos estes miminhos e ocasiões especiais. Que o Natal venha depressa e para todos, os que se encontram como eu e os afortunados também, feliz festas!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Negociar o amor

Estar numa relação é o mesmo que começar um negócio, não que seja tão frio e banal como uma mera troca de oportunidades e dinheiro, mas começa como tal. Há o conhecer, saber que aquela oportunidade se encontra ao nosso alcance. A seguir, o projecto - neste caso, o sonho do que virá, a projeção de um futuro juntos. Logo depois dá-se o chamado empréstimo, precisas de dinheiro num negócio tal como precisas de amor numa relação. Quando a empresa começa, há altos e baixos, em que ganhas e perdes dinheiro numa velocidade alucinante, como uma montanha russa com todo o tipo de curvas e contracurvas. Essa empresa pode ter imenso sucesso e tornar-se multimilionária mas apenas com muito trabalho, muito investimento de lágrimas e suor, assim como dás tudo o que tens, corpo e alma, para aquele que o merece. Porém, nem sempre achamos um bom investimento, aliás, mais facilmente encontramos um buraco negro para o nosso dinheiro (suga tudo e não retribui) do que um negócio vitalício. Há que saber procurar, mas também há que ter alguns prejuízos antes de chegar ao sucesso. No entanto, assim que chegas à enorme satisfação de teres uma empresa que gere cada vez mais dinheiro, estás nas nuvens, a viver à grande (ou pelo menos sentes-te assim).
Estar numa relação é tanto o mesmo que começar um negócio como acabar uma relação é o mesmo que ir à falência... Perde-se tudo, mas o sonho continua lá.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Saber quando sair.



Perguntei-me a mim própria o porquê. Tantos à minha volta sofriam do mesmo mal. No mundo, não estava sozinha, mas cá dentro, no meu mais íntimo, sentia uma solidão e amargura desmesuradas. Parecia que o mundo me tinha virado as costas como se eu fosse um simples bicho de quem ninguém gostava. 
Ir às aulas, ou melhor, arrastar-me até às aulas, era um suplício. Ouvi meia dúzia de palavras como música de fundo (se é que foram tantas), enquanto pensava no fim (isto durante meses a fio). No fim de tudo, das aulas, dos amigos, da família. Será que as amigas notariam diferença, será que a mãe reagiria loucamente ou será que o irmão sentiria falta? 
Talvez um prédio alto resolvesse o assunto. Um passo em frente e mais ninguém sofria pela minha presença a mais no mundo. Ocupava espaço que poderia ser melhor usado por alguém que realmente o merecesse e quisesse. Talvez se tudo acabasse com o prédio!...
Mas... e a minha mãe? A minha fiel companheira nas horas de tristeza, nas horas de desabafo, nos choros de baba e ranho por rapazes que não mereciam atenção. E ela? Que seria feito da pessoa que dedicara toda a sua vida a providenciar amor e carinho, comida e abrigo para uma ingrata que se achava a mais na terra? Era injusto tirar-lhe um dos seus bens mais preciosos porque eu, uma miúda que ainda nada sabia do mundo, achava que estava na hora, que a viagem já se tornara demasiado longa, que era exatamente isso, apenas uma passageira nesta aventura e não alguém que quisesse visitar os pontos de interesse. 
O apetite voltou. Cada dentada a mais que comia do prato fazia emergir um sorriso da cara da minha mãe. "Estás a comer melhor!", dizia alegremente. Ossos e pele deram origem a carne, a consistência. Cada sorriso me tornava  mais forte, mais viva! Comprimidos e suplementos vitamínicos voltaram para a gaveta, para ficarem para sempre perdidos. Sentimentos de culpa e desolação afrouxaram para dar espaço a um sentido de humor, criado por boas companhias. Um sorrisinho aqui, uma gargalhada ali e fiquei a quase cem porcento do que era anteriormente. Nunca seria a mesma, feridas cicatrizam mas nunca desaparecem. Aprendi. Se se criou algo de bom desta experiência terrível, foi a aprendizagem. É preciso saber o que é querer morrer para dar valor à vida e querer levá-la ao máximo.
E foi então que me questionei: porquê? Porque é que tudo começou? O que me levou a acreditar fielmente que, ao respirar, estava a tirar o lugar a outrem?
Um rapaz. Ou melhor, um miúdo. Um coração partido não é só psicológico. Afeta tanto o corpo como a mente e eu descobri isso da pior maneira. Sabia tudo sobre ele, sabia onde estaria, como pensava, até sabia o que ia dizer, mesmo antes de dizê-lo! Talvez estivesse mais perto de obsessão do que de amor, mas a mente prega partidas e não tenho como o saber. Todo o meu conhecimento dessa altura baseia-se na simples realização que dedicava corpo e alma a este miúdo porque o amava. Se queres que alguém te odeie, quebra a sua confiança. Despedaça-lhe o coração em mil bocados e não expliques porquê. É a dúvida, o não saber porquê que te leva à loucura e ao querer terminar tudo. Sim, porque se a dúvida leva navegantes na busca de descobrimentos, esta será certamente de dupla face e remeterá igualmente para a alienação mental...

sábado, 11 de outubro de 2014

A "poeta" em mim



 As peripécias de amar

Amar é sacrificares-te por pouco,
Perseguires um ideal sem pés nem cabeça, feito louco.
Como se todo o teu trabalho valesse de algo,
Como se fosses coroado fidalgo
Por amares, do teu lado apenas a sorte,
Contra ti a morte.
Amar dói e doer é amar,
Mas não é preciso sacrificar
Tudo o que tens pela mentira.
Quem sabe, talvez um dia,
Saibas o verdadeiro significado do amor.
Só peço que não sucumbas à dor
De tentar demasiado, sem nenhum resultado,
Como se fosse tudo dado de mão beijada.

domingo, 28 de setembro de 2014

Puzzle Inacabado

Sinceramente, peço desculpa pela demora, esta coisa de virar maior de idade e entrar na faculdade dá muito trabalho, mas vou tentar escrever com mais frequência! Beijinhos.
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A verdade é que tudo na vida é confuso. Não podes propriamente encontrar uma resposta para as tuas ínfimas perguntas num canto qualquer como se aparecessem por magia. Quando tens a possibilidade de ter tudo no sítio, aparece-te uma dúvida. Quem és tu? A definição do teu "eu" é ainda mais confusa que a vida em si. 
Nascer de uma família tão exigente nunca me deu muita margem de manobra para pensar no que queria ser, mas sim mais no que tinha de ser. Tinha que coincidir todas as expetatitvas de uns pais que tudo querem e tudo podem (não que isso fosse propriamente um aspeto negativo, ensinaram-me que nem tudo é à nossa maneira, há momentos para insubordinação tal como os há de obedecer). Sempre achei que a lua não era assim tão distante, que tudo era alcançável quando se sonha em grande. E a minha definição acabou por ser a de sonhadora. Quando as coisas corriam para o lado errado, o sonho era a minha escapatória. "Hei-de ser alguém, fazer a diferença e influenciar os que me rodeiam." Agora parece-me o maior cliché que já ouvi, mas uma criança ainda não conhece o mundo.
Passei por tantas definições ao longo do tempo: a confiante, a tímida, a amiga e a rapariga de coração partido; que, pelo caminho, perdi a verdadeira definição de quem era... Sou uma rapariga, apenas isso. Sonho, desiludo, erro (mesmo que por estupidez), apaixono-me e caio de cara, procuro o conforto de outros na minha vida e preocupo-me com tudo e todos. Por mais vezes que erre, serei humana na mesma e continuarei a cometer atrocidades (a meu ver) que seriam possíveis evitar, mas nunca o mesmo erro duas vezes. Não me posso designar a mim mesma de um adjetivo que qualifica uma tão pequena parte de mim! Eu sou um todo, confuso e talvez complexo (até eu me acho incoerente), mas serei, sem dúvida, um puzzle com tantas peças que a minha definição está ainda por definir!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A cambalhotar pelo futuro

Para onde vou? O que quero eu da vida? Estas perguntas misantropas que preenchem a vida humana são uma porcaria. Podia procurar um adjetivo mais visualmente apelativo mas, verdades sejam ditas, porcaria é uma palavra que bem caracteriza a minha indecisão relativa à vida.
Sempre tive uma ideia bastante definida em relação ao que queria do meu futuro, porém, com o passar do tempo, essa ideia foi-se moldando noutra e por aí em diante. De momento, a ideia nada tem a ver com a conceção inicial de ser uma médica pediatra rodeada de bebés rechonchudos e doenças estranhas.
Sou como me apresento - uma rapariga um tanto anormal, comparando com a convenção de uma pessoa do sexo feminino perto da maturidade. Os meus sonhos foram despedaçados pela cruel realidade que se calhar não sou assim tão inteligente quanto os meus pais sempre me levaram a crer. Os nossos pais estão cá para nos encorajar a ambicionar alto, a querer voar e não parar por aí. No entanto, chega uma altura em que temos que saber desistir (guardar as asinhas no armário), admitir os nossos defeitos e aceitá-los como parte de nós. Tive o azar (ou assim o considero) de não ser uma das felizes afortunadas a gostar de estudar. Pegar em livros de Química invoca o sono em mim, já para não falar em Matemática, que conjura os meus demónios mais furiosos quando chego a um impasse. Portanto, nunca me considerei sábia, mas a minha curiosidade por alguns tipos de conhecimento sempre me levou a pensar que talvez chegasse longe. Enganei-me a mim e aos grandes detentores de orgulho caso eu tivesse sucesso - a minha mãe e o meu pai. 
A minha veia de escritora levou-me quase literalmente a digerir livros ao pequeno almoço, mas romances não ensinam nada muito concreto, para além da ocasional anatomia. Não que o meu amor pela leitura não tenha dado frutos! Oh, se deu! Passei Português com uma perna atrás das costas, só que isso não ajuda muito quando o curso se baseia em matemáticas em vez de letras...
Isto tudo para dizer que o comboio que o meu futuro está a tomar descarrilou há uns tempos, mas que voltou à linha assim que chegaram mecânicos que recuperassem o caminho.
Continuo sem saber bem o que quero. Enfermagem acabou por entrar numa das paragens do comboio e ficar, sem eu dar muito caso. O futuro é um poço em que desconhecemos o fundo e para o qual nos temos de atirar de cabeça. Pois bem, vou tentar atirar-me e fazer o pino pela viagem, só para tornar as coisas mais interessantes.