Perguntei-me a mim própria o porquê. Tantos à minha volta sofriam do mesmo mal. No mundo, não estava sozinha, mas cá dentro, no meu mais íntimo, sentia uma solidão e amargura desmesuradas. Parecia que o mundo me tinha virado as costas como se eu fosse um simples bicho de quem ninguém gostava.
Ir às aulas, ou melhor, arrastar-me até às aulas, era um suplício. Ouvi meia dúzia de palavras como música de fundo (se é que foram tantas), enquanto pensava no fim (isto durante meses a fio). No fim de tudo, das aulas, dos amigos, da família. Será que as amigas notariam diferença, será que a mãe reagiria loucamente ou será que o irmão sentiria falta?
Talvez um prédio alto resolvesse o assunto. Um passo em frente e mais ninguém sofria pela minha presença a mais no mundo. Ocupava espaço que poderia ser melhor usado por alguém que realmente o merecesse e quisesse. Talvez se tudo acabasse com o prédio!...
Mas... e a minha mãe? A minha fiel companheira nas horas de tristeza, nas horas de desabafo, nos choros de baba e ranho por rapazes que não mereciam atenção. E ela? Que seria feito da pessoa que dedicara toda a sua vida a providenciar amor e carinho, comida e abrigo para uma ingrata que se achava a mais na terra? Era injusto tirar-lhe um dos seus bens mais preciosos porque eu, uma miúda que ainda nada sabia do mundo, achava que estava na hora, que a viagem já se tornara demasiado longa, que era exatamente isso, apenas uma passageira nesta aventura e não alguém que quisesse visitar os pontos de interesse.
O apetite voltou. Cada dentada a mais que comia do prato fazia emergir um sorriso da cara da minha mãe. "Estás a comer melhor!", dizia alegremente. Ossos e pele deram origem a carne, a consistência. Cada sorriso me tornava mais forte, mais viva! Comprimidos e suplementos vitamínicos voltaram para a gaveta, para ficarem para sempre perdidos. Sentimentos de culpa e desolação afrouxaram para dar espaço a um sentido de humor, criado por boas companhias. Um sorrisinho aqui, uma gargalhada ali e fiquei a quase cem porcento do que era anteriormente. Nunca seria a mesma, feridas cicatrizam mas nunca desaparecem. Aprendi. Se se criou algo de bom desta experiência terrível, foi a aprendizagem. É preciso saber o que é querer morrer para dar valor à vida e querer levá-la ao máximo.
E foi então que me questionei: porquê? Porque é que tudo começou? O que me levou a acreditar fielmente que, ao respirar, estava a tirar o lugar a outrem?
Um rapaz. Ou melhor, um miúdo. Um coração partido não é só psicológico. Afeta tanto o corpo como a mente e eu descobri isso da pior maneira. Sabia tudo sobre ele, sabia onde estaria, como pensava, até sabia o que ia dizer, mesmo antes de dizê-lo! Talvez estivesse mais perto de obsessão do que de amor, mas a mente prega partidas e não tenho como o saber. Todo o meu conhecimento dessa altura baseia-se na simples realização que dedicava corpo e alma a este miúdo porque o amava. Se queres que alguém te odeie, quebra a sua confiança. Despedaça-lhe o coração em mil bocados e não expliques porquê. É a dúvida, o não saber porquê que te leva à loucura e ao querer terminar tudo. Sim, porque se a dúvida leva navegantes na busca de descobrimentos, esta será certamente de dupla face e remeterá igualmente para a alienação mental...




