Aqui vai outro texto mais antigo, já com um anito e qualquer coisa e que, no entanto, leva-me a pensar tanto quanto levava na altura em que o escrevi.
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Às vezes apetece-me parar. Não ligar minimamente ao que me rodeia. Olho à volta e está tudo em "stand-by". Vejo uma criança a soprar bolhas de sabão e um casal de mãos dadas. Revejo-me na inocência da criança, ocupada com uma tarefa tão simples, e no casal, que parece quase perfeito (é pena não passar tudo duma ilusão ótica). Não tenho inveja, mas admiro a descontração absoluta de ambos os cenários.
Em contraste, ali estou eu. Com todas as preocupações do mundo. Não paro de pensar em como tudo está errado. Mas quero parar, apetece-me parar.
O resto do mundo à minha volta conversa alegremente, com gargalhadas triunfantes. Fico desanimada, mas não o demonstro. Nada nesse momento me faz sorrir. Eu quero parar!
E, de repente, o mundo continua com o seu próprio ritmo. As bolhas elevam-se rapidamente no ar e o casal partilha um terno beijo.
Inquietude prolongada. Sinto-me assim parece que há eternidades. Não me recordo de como voltar a ser "normal". Este não querer ser assim e, ao mesmo tempo, não querer mudar, consome-me.
As gargalhadas continuam, quase que fortes demais, como se me quisessem rebentar os tímpanos com a sua intensidade. Não gozam comigo... nem me glorificam.
Chega de me sentir mal. Continuo a sorrir, embora sem emoção. Há muito que não dou uma bela gargalhada sentida. Pratico o sorriso como se as cortinas de um palco estivessem prestes a subir. Nem o espelho é meu amigo: mostra-me um rosto cansado e taciturno. Eu sei que todos os que me rodeiam praticam tanto quanto eu. Tudo é uma infinita peça de teatro. Porém, ninguém recebe créditos de autoria, ninguém os quer. Então, mas que mundo é este? Seja qual for, não é permanente.
E, inesperadamente, as bolhas rebentam quando eu acordo para a realidade. Ninguém se importa porque este inferno tem o seu fim.