sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A cambalhotar pelo futuro

Para onde vou? O que quero eu da vida? Estas perguntas misantropas que preenchem a vida humana são uma porcaria. Podia procurar um adjetivo mais visualmente apelativo mas, verdades sejam ditas, porcaria é uma palavra que bem caracteriza a minha indecisão relativa à vida.
Sempre tive uma ideia bastante definida em relação ao que queria do meu futuro, porém, com o passar do tempo, essa ideia foi-se moldando noutra e por aí em diante. De momento, a ideia nada tem a ver com a conceção inicial de ser uma médica pediatra rodeada de bebés rechonchudos e doenças estranhas.
Sou como me apresento - uma rapariga um tanto anormal, comparando com a convenção de uma pessoa do sexo feminino perto da maturidade. Os meus sonhos foram despedaçados pela cruel realidade que se calhar não sou assim tão inteligente quanto os meus pais sempre me levaram a crer. Os nossos pais estão cá para nos encorajar a ambicionar alto, a querer voar e não parar por aí. No entanto, chega uma altura em que temos que saber desistir (guardar as asinhas no armário), admitir os nossos defeitos e aceitá-los como parte de nós. Tive o azar (ou assim o considero) de não ser uma das felizes afortunadas a gostar de estudar. Pegar em livros de Química invoca o sono em mim, já para não falar em Matemática, que conjura os meus demónios mais furiosos quando chego a um impasse. Portanto, nunca me considerei sábia, mas a minha curiosidade por alguns tipos de conhecimento sempre me levou a pensar que talvez chegasse longe. Enganei-me a mim e aos grandes detentores de orgulho caso eu tivesse sucesso - a minha mãe e o meu pai. 
A minha veia de escritora levou-me quase literalmente a digerir livros ao pequeno almoço, mas romances não ensinam nada muito concreto, para além da ocasional anatomia. Não que o meu amor pela leitura não tenha dado frutos! Oh, se deu! Passei Português com uma perna atrás das costas, só que isso não ajuda muito quando o curso se baseia em matemáticas em vez de letras...
Isto tudo para dizer que o comboio que o meu futuro está a tomar descarrilou há uns tempos, mas que voltou à linha assim que chegaram mecânicos que recuperassem o caminho.
Continuo sem saber bem o que quero. Enfermagem acabou por entrar numa das paragens do comboio e ficar, sem eu dar muito caso. O futuro é um poço em que desconhecemos o fundo e para o qual nos temos de atirar de cabeça. Pois bem, vou tentar atirar-me e fazer o pino pela viagem, só para tornar as coisas mais interessantes.

domingo, 10 de agosto de 2014

Self confidence



Esquecer alguém é difícil, nunca esqueces mesmo os seus pequenos tiques ou até a sua maneira de escrever uma mensagem. Mas é verdade que o tempo tudo cura ou, se não cura, realmente ajuda.
Começas-te a esquecer do cheiro da roupa dele, da sua entoação a dizer palavras do quotidiano, até mesmo do seu corpo, se é esguio ou não. Há memórias que permanecem, mas quanto mais pensas nelas, mais as alteras e esqueces pormenores que outrora estavam frescos na tua memória.
Recomeças a dar-te o valor que realmente mereces. A tua confiança volta a crescer e inicias o processo de reparar que o ditado de "há mais peixe no mar" sempre foi verdade desde o início.
No espelho, já não pareces exageradamente gorda ou magra, notas que até adquiriste uma cor agradável durante o verão e que as pessoas à tua volta também notaram. Os elogios que te dão já são bem recebidos, não entram em ouvidos moucos. Até os teus amigos reparam que o teu sorriso verdadeiro finalmente decidiu sair do armário e conquistar o mundo. 
Há mais peixe no mar como há mais sorrisos maravilhosos e olhos encantadores. Há risos mais bonitos, há personalidades mais apelativas, há mais! E esse simples facto, o chegar a esta idealização, é a recuperação da perda.
Para quê andar pelos cantos à espera que o que foi, volte? Tudo o que sobe tem de descer, mas nem tudo o que vai, volta. Está na hora de ver as coisas com outros olhos. Olhos que não tão cedo estarão cravejados de lágrimas porque se o sorriso veio, veio para ficar.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Infelizmente, é um adeus.

Pareceu a viagem mais longa da minha vida. O rádio não foi ligado nem uma vez, à falta de necessidade do mesmo. Não havia qualquer melodia que fosse suavizar a dor presente nos nossos corações. Parámos apenas duas vezes: a primeira numa farmácia porque os nervos da minha mãe a impediam de continuar e a segunda num café, para saciar a pouca fome existente, onde os nervos da minha mãe atrapalharam novamente. 
Vi-a chorar no carro enquanto esperava por nós. Ela estava de luto, mas lutar não parecia, de longe, o que queria fazer. Quebrou-me o coração vê-la chorar novamente quando retomámos viagem, com os seus óculos de sol postos. Por mais que ela o planeasse, nunca seria capaz de esconder o seu sofrimento de mim. Os óculos podiam ocultar isso para muita gente, mas eu sabia que o que ela estava a sentir era forte demais para manter cá dentro e conheço-a melhor que ninguém.
O meu pai manteve-se calmo. A minha mãe precisava de alguém que funcionasse como a voz da razão e ele desempenhou bem o papel. Foi a única altura em que a sua frieza foi benvinda. Eu permaneci calada, observando tudo à minha volta numa tentativa inútil de substituir os meus pensamentos de morte por outros mais agradáveis, mas nada parecia ajudar. Como apoio emocional, eu era uma lástima. Estava tão perdida quanto ela porque sofria por duas: a morte da minha querida avó e o terror e desolação da minha mãe. Quem me dera ter tido respostas para todas as perguntas retóricas que ela atirava ao ar durante o choro, ou só às minhas sequer.
Senti-me como pedra quando recebi a notícia, não sabendo bem o que fazer ou dizer. Parecia-me tudo mentira, uma piada de mau gosto. Mas ninguém brinca com a morte. Como disse, foi a viagem mais longa da minha vida...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Teatro ao Vivo



Aqui vai outro texto mais antigo, já com um anito e qualquer coisa e que, no entanto, leva-me a pensar tanto quanto levava na altura em que o escrevi.

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Às vezes apetece-me parar. Não ligar minimamente ao que me rodeia. Olho à volta e está tudo em "stand-by". Vejo uma criança a soprar bolhas de sabão e um casal de mãos dadas. Revejo-me na inocência da criança, ocupada com uma tarefa tão simples, e no casal, que parece quase perfeito (é pena não passar tudo duma ilusão ótica). Não tenho inveja, mas admiro a descontração absoluta de ambos os cenários.
Em contraste, ali estou eu. Com todas as preocupações do mundo. Não paro de pensar em como tudo está errado. Mas quero parar, apetece-me parar.
O resto do mundo à minha volta conversa alegremente, com gargalhadas triunfantes. Fico desanimada, mas não o demonstro. Nada nesse momento me faz sorrir. Eu quero parar!
E, de repente, o mundo continua com o seu próprio ritmo. As bolhas elevam-se rapidamente no ar e o casal partilha um terno beijo.
Inquietude prolongada. Sinto-me assim parece que há eternidades. Não me recordo de como voltar a ser "normal". Este não querer ser assim e, ao mesmo tempo, não querer mudar, consome-me.
As gargalhadas continuam, quase que fortes demais, como se me quisessem rebentar os tímpanos com a sua intensidade. Não gozam comigo... nem me glorificam.
Chega de me sentir mal. Continuo a sorrir, embora sem emoção. Há muito que não dou uma bela gargalhada sentida. Pratico o sorriso como se as cortinas de um palco estivessem prestes a subir. Nem o espelho é meu amigo: mostra-me um rosto cansado e taciturno. Eu sei que todos os que me rodeiam praticam tanto quanto eu. Tudo é uma infinita peça de teatro. Porém, ninguém recebe créditos de autoria, ninguém os quer. Então, mas que mundo é este? Seja qual for, não é permanente.
E, inesperadamente, as bolhas rebentam quando eu acordo para a realidade. Ninguém se importa porque este inferno tem o seu fim.

sábado, 19 de julho de 2014

Culpada

Lamento. Ignorei o problema quando ele estava tão presente. Podia até culpar a minha juventude e a falta de sabedoria ou discernimento adjacentes à minha idade, mas nada disso perdoa o que fiz. Não estava lá por ti e lamento com todas as minhas forças. Custa-me ver o teu sofrimento num momento destes. Estás presente em tantas memórias da minha vida, acompanhaste o meu crescimento ao longo destes quase 18 anos e ajudaste-me a ser quem sou. E, no entanto, fui cobarde e, quando podias estar nos teus últimos dias, enchi-me de medo e esperei pelo melhor. 
É verdade que nada podia fazer senão rezar (mesmo que não acredite num Deus) para que recuperasses depressa, mas continuar com a minha vida como se nada fosse foi um dos piores erros da minha vida e tenho que viver com isso.
Hoje visitei-te. Acredito que nem saibas que lá estive, apesar de te observar por mais de uma hora. Mas não importa, segurei a tua mão, acariciei a tua linda face cravada de rugas e sussurrei-te ao ouvido o que acredito ser verdade: é só mais uma fase. Passaste por tanto e não é isto que te vai desmoronar. Eu sei que a idade não perdoa, mas quem diria que chegarias tão longe sequer. É por isso que não vou perder a esperança que tenho na tua recuperação.
Doeu-me por dentro ver como estavas. O teu lutar por formar palavras e não conseguires, a dificuldade em respirar, a constante súplica gestual para te tirarem dali. Pior era não poderes ver com os maravilhosos olhos com que nasceste.
Era nestes momentos que queria acreditar em algo superior a mim mesma. Acreditar que Deus tem o teu caminho traçado e que tudo ficará bem. Mas não acredito e a única coisa que posso fazer é esperar. Como odeio esperar! Eu quero-te bem! Quero que vivas mais 88 anos se for preciso! Quero que estejas lá no dia do meu casamento ou que conheças os meus filhos... Eu sei que é pedir muito, já não sou a criança que viste crescer e muito menos ignorante. E é egoísta da minha parte, mas não podes ir embora agora! Preciso de ti, não estou preparada para não te ter na minha vida.
Por isso, força avó! Eu adoro-te.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Atuns fora de água


Amei-te. Contra tudo o que achava possível, amei mesmo. O meu coração estava partido em vários pedaços já, mas parti-o mais uma vez só por te amar. Descrever a forma como o meu carinho por ti cresceu é o mesmo que tentar explicar porque as estrelas marcam os céus à noite - é complicado. 
Comecei por nem te achar nada de especial. Claro que captaste a minha atenção desde o início, foste um dos poucos afortunados a fazer o tal clique que tanto faz falta na atração humana, mas não passavas de um rapaz um pouco atraente, ao qual ainda não tinha sido atribuída nenhuma qualidade à personalidade porque ainda não te conhecia.
Tenho que dizer que a primeira coisa por que me apaixonei foram os teus olhos. Parecia que tudo viam, como se me olhassem por dentro e vissem todos os meus defeitos ou inseguranças. Mais tarde vim a saber que não, mas nessa altura ainda sonhava com o que podíamos vir a ser.
A seguir foi esse sorriso contagiante. Ah, como me apetecia sorrir só de ver essa tua constante felicidade! Essa alegria que parecia inerente à tua forma de viver, ao facto de seres jovem... Toda a gente dizia que sorrir era contigo, que eras feliz. Talvez tenha sido isso a atrair-me e não o conjunto de belos dentes em si (mesmo que fosse o conjunto mais branco que alguma vez tenha visto). Queria ser feliz também e, honestamente, queria preencher o vazio que há tanto tempo me dominava. Pode até ter sido um gesto egoísta da minha parte, mas queria um pouco da tua felicidade.
Pouco tempo depois, apaixonei-me pelos teus defeitos. Devo dizer que no início foi difícil, eras tão teimoso quanto eu, se não mais! Fazias-me lutar contra os meus demónios e aceitar-te como eras. E, no entanto, amei-os tanto quanto amei tudo o resto.
Agora sinto-me apenas estúpida por te querer ao meu lado. Esse teu cheiro está cravado na minha memória como o meu perfume favorito e não há nada que o substitua. O teu toque aveludado faz agora parte da minha pele. Porém, nada disto importa mais. As memórias continuam cá como episódios que eu revejo constantemente, mas nada mudou e muito dificilmente mudará.
Em tão pouco tempo, vim a criar uma ternura enorme por ti. Chamarem pelo teu nome ou pela simples alcunha que te foi dada pelos teus amigos era música para os meus ouvidos. E enerva-me sentir o que quer que seja quando claramente não passaste pelo mesmo processo que eu em relação a ti.
Mas pensar noutro, num novo interesse romântico, dá-me náuseas profundas. Neste momento, ninguém te pode substituir. Pois bem, como costumam dizer: o tempo tudo cura. Espero que seja o caso...

Dormência entristecedora

Aqui vai um texto que eu escrevi há uns tempos atrás, quando me sentia mais à nora com a vida e com o que me rodeava.
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Vazia. Não como se fosse de ar e vento, porque até aí teria algo no meu interior. Vazia de alma e vazia de espírito. Sem nada que me faça contestar a realidade ou sequer ter vontade de aderir a ela.

Poderia dizer que sou como o vácuo, mas o universo é vácuo e até ele está coberto de estrelas. Não, eu não tenho nada. O coração, outrora cheio – de amor, amizade e remorsos – apodreceu e morreu. Como sentira tão fortemente no passado, não sei. Mas agora não bate por ninguém. A cruel realidade matou-o. Não há sentimento nenhum que o faça bater mais forte e esse mesmo batimento regular só existe porque a anatomia o obriga.

E será um sentimento, esta sensação de vazio? Uma dormência interminável que parece apoderar-se de todo o corpo, de tudo… Será possível a reanimação do sentir?

Parece improvável que uma criatura que morra, volte à vida. Portanto, será inconcebível o coração renascer. E quantas canções foram escritas à custa disso? Da improbabilidade de refazer a vida e ter de novo as alegrias passadas. Dói apenas pensar no passado. Dói reviver mentalmente as imagens que tanto me marcaram. Dói… Quando as infelicidades se sobrepõem às jovialidades, mais nada se vê à frente para além do inferno que a vida pode proporcionar. E que longo pode ser esse inferno – aliás, a sua duração pode chegar até a uma vida inteira. Ou então uma meia vida, quando a própria pessoa a tira voluntariamente, cansada do sofrimento adjacente ao viver.

Mas o vazio não perdoa. Não faz nada para além de te cansar. Porque vazia, não há nada que eu queira fazer, nem reviver, nem morrer. Os dias passam, lentamente, enquanto eu assisto aos corações que batem por algo mais, à minha volta. Muitos desses acabam por morrer também. E é preciso ter um coração morto para reconhecer outro. Então, para que serve o vazio? Não será de certeza um mecanismo de defesa, porque até a dor dói menos que a dormência.