Pareceu a viagem mais longa da minha vida. O rádio não foi ligado nem uma vez, à falta de necessidade do mesmo. Não havia qualquer melodia que fosse suavizar a dor presente nos nossos corações. Parámos apenas duas vezes: a primeira numa farmácia porque os nervos da minha mãe a impediam de continuar e a segunda num café, para saciar a pouca fome existente, onde os nervos da minha mãe atrapalharam novamente.
Vi-a chorar no carro enquanto esperava por nós. Ela estava de luto, mas lutar não parecia, de longe, o que queria fazer. Quebrou-me o coração vê-la chorar novamente quando retomámos viagem, com os seus óculos de sol postos. Por mais que ela o planeasse, nunca seria capaz de esconder o seu sofrimento de mim. Os óculos podiam ocultar isso para muita gente, mas eu sabia que o que ela estava a sentir era forte demais para manter cá dentro e conheço-a melhor que ninguém.
O meu pai manteve-se calmo. A minha mãe precisava de alguém que funcionasse como a voz da razão e ele desempenhou bem o papel. Foi a única altura em que a sua frieza foi benvinda. Eu permaneci calada, observando tudo à minha volta numa tentativa inútil de substituir os meus pensamentos de morte por outros mais agradáveis, mas nada parecia ajudar. Como apoio emocional, eu era uma lástima. Estava tão perdida quanto ela porque sofria por duas: a morte da minha querida avó e o terror e desolação da minha mãe. Quem me dera ter tido respostas para todas as perguntas retóricas que ela atirava ao ar durante o choro, ou só às minhas sequer.
Senti-me como pedra quando recebi a notícia, não sabendo bem o que fazer ou dizer. Parecia-me tudo mentira, uma piada de mau gosto. Mas ninguém brinca com a morte. Como disse, foi a viagem mais longa da minha vida...


