quinta-feira, 17 de julho de 2014

Atuns fora de água


Amei-te. Contra tudo o que achava possível, amei mesmo. O meu coração estava partido em vários pedaços já, mas parti-o mais uma vez só por te amar. Descrever a forma como o meu carinho por ti cresceu é o mesmo que tentar explicar porque as estrelas marcam os céus à noite - é complicado. 
Comecei por nem te achar nada de especial. Claro que captaste a minha atenção desde o início, foste um dos poucos afortunados a fazer o tal clique que tanto faz falta na atração humana, mas não passavas de um rapaz um pouco atraente, ao qual ainda não tinha sido atribuída nenhuma qualidade à personalidade porque ainda não te conhecia.
Tenho que dizer que a primeira coisa por que me apaixonei foram os teus olhos. Parecia que tudo viam, como se me olhassem por dentro e vissem todos os meus defeitos ou inseguranças. Mais tarde vim a saber que não, mas nessa altura ainda sonhava com o que podíamos vir a ser.
A seguir foi esse sorriso contagiante. Ah, como me apetecia sorrir só de ver essa tua constante felicidade! Essa alegria que parecia inerente à tua forma de viver, ao facto de seres jovem... Toda a gente dizia que sorrir era contigo, que eras feliz. Talvez tenha sido isso a atrair-me e não o conjunto de belos dentes em si (mesmo que fosse o conjunto mais branco que alguma vez tenha visto). Queria ser feliz também e, honestamente, queria preencher o vazio que há tanto tempo me dominava. Pode até ter sido um gesto egoísta da minha parte, mas queria um pouco da tua felicidade.
Pouco tempo depois, apaixonei-me pelos teus defeitos. Devo dizer que no início foi difícil, eras tão teimoso quanto eu, se não mais! Fazias-me lutar contra os meus demónios e aceitar-te como eras. E, no entanto, amei-os tanto quanto amei tudo o resto.
Agora sinto-me apenas estúpida por te querer ao meu lado. Esse teu cheiro está cravado na minha memória como o meu perfume favorito e não há nada que o substitua. O teu toque aveludado faz agora parte da minha pele. Porém, nada disto importa mais. As memórias continuam cá como episódios que eu revejo constantemente, mas nada mudou e muito dificilmente mudará.
Em tão pouco tempo, vim a criar uma ternura enorme por ti. Chamarem pelo teu nome ou pela simples alcunha que te foi dada pelos teus amigos era música para os meus ouvidos. E enerva-me sentir o que quer que seja quando claramente não passaste pelo mesmo processo que eu em relação a ti.
Mas pensar noutro, num novo interesse romântico, dá-me náuseas profundas. Neste momento, ninguém te pode substituir. Pois bem, como costumam dizer: o tempo tudo cura. Espero que seja o caso...

Dormência entristecedora

Aqui vai um texto que eu escrevi há uns tempos atrás, quando me sentia mais à nora com a vida e com o que me rodeava.
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Vazia. Não como se fosse de ar e vento, porque até aí teria algo no meu interior. Vazia de alma e vazia de espírito. Sem nada que me faça contestar a realidade ou sequer ter vontade de aderir a ela.

Poderia dizer que sou como o vácuo, mas o universo é vácuo e até ele está coberto de estrelas. Não, eu não tenho nada. O coração, outrora cheio – de amor, amizade e remorsos – apodreceu e morreu. Como sentira tão fortemente no passado, não sei. Mas agora não bate por ninguém. A cruel realidade matou-o. Não há sentimento nenhum que o faça bater mais forte e esse mesmo batimento regular só existe porque a anatomia o obriga.

E será um sentimento, esta sensação de vazio? Uma dormência interminável que parece apoderar-se de todo o corpo, de tudo… Será possível a reanimação do sentir?

Parece improvável que uma criatura que morra, volte à vida. Portanto, será inconcebível o coração renascer. E quantas canções foram escritas à custa disso? Da improbabilidade de refazer a vida e ter de novo as alegrias passadas. Dói apenas pensar no passado. Dói reviver mentalmente as imagens que tanto me marcaram. Dói… Quando as infelicidades se sobrepõem às jovialidades, mais nada se vê à frente para além do inferno que a vida pode proporcionar. E que longo pode ser esse inferno – aliás, a sua duração pode chegar até a uma vida inteira. Ou então uma meia vida, quando a própria pessoa a tira voluntariamente, cansada do sofrimento adjacente ao viver.

Mas o vazio não perdoa. Não faz nada para além de te cansar. Porque vazia, não há nada que eu queira fazer, nem reviver, nem morrer. Os dias passam, lentamente, enquanto eu assisto aos corações que batem por algo mais, à minha volta. Muitos desses acabam por morrer também. E é preciso ter um coração morto para reconhecer outro. Então, para que serve o vazio? Não será de certeza um mecanismo de defesa, porque até a dor dói menos que a dormência.

Silêncio é a palavra de ordem mas sabe bem quebrar as regras





Tantas palavras mantidas cá dentro que lutam por fugir dos meus lábios. Palavras que magoam demasiado o receptor e que são como bombas-relógio, à espera do momento ideal para rebentarem. O meu problema é esse. Eu sou uma bomba-relógio permanente. Tudo é compactado cá dentro, o mais ínfimo problema que eu não quis expor. Não é que seja propositadamente, mas fico à coca de um momento surreal, de pura felicidade, para estragar tudo.
É inevitável as palavras saírem. Mais cedo ou mais tarde, elas vão estar fora da boca, vão arranhar a garganta à saída e secar os lábios com a sua friúra. Palavras que certamente matariam se pudessem, já que os pensamentos o fazem. 
 No fundo são os sentimentos engarrafados há tempo demais que se querem libertar, tanta é a pressão que fazem cá dentro. E saem na forma de dolorosos gritos que se transformam em garras que rasgam a carne de quem as ouve. Como podem simples frases magoar tanto? Pois bem, um dos meus piores defeitos será sem dúvida o saber logo de início os pontos fracos das pessoas. Vendo só assim, não seria um defeito, mas é o aproveitar-me deles nestes momentos que o torna numa coisa sórdida e intolerável. Inconscientemente, destruo o que tenho de bom à minha volta. Ah, palavras da minha boca! Se pudessem permanecer no silêncio... E, apesar do silêncio ser a palavra de ordem, sabe tão bem quebrar as regras.