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Vazia. Não como se fosse de ar e
vento, porque até aí teria algo no meu interior. Vazia de alma e vazia de
espírito. Sem nada que me faça contestar a realidade ou sequer ter vontade de
aderir a ela.
Poderia dizer que sou como o
vácuo, mas o universo é vácuo e até ele está coberto de estrelas. Não, eu não
tenho nada. O coração, outrora cheio – de amor, amizade e remorsos – apodreceu
e morreu. Como sentira tão fortemente no passado, não sei. Mas agora não bate
por ninguém. A cruel realidade matou-o. Não há sentimento nenhum que o faça
bater mais forte e esse mesmo batimento regular só existe porque a anatomia o
obriga.
E será um sentimento, esta
sensação de vazio? Uma dormência interminável que parece apoderar-se de todo o
corpo, de tudo… Será possível a reanimação do sentir?
Parece improvável que uma
criatura que morra, volte à vida. Portanto, será inconcebível o coração
renascer. E quantas canções foram escritas à custa disso? Da improbabilidade de
refazer a vida e ter de novo as alegrias passadas. Dói apenas pensar no
passado. Dói reviver mentalmente as imagens que tanto me marcaram. Dói… Quando
as infelicidades se sobrepõem às jovialidades, mais nada se vê à frente para
além do inferno que a vida pode proporcionar. E que longo pode ser esse inferno
– aliás, a sua duração pode chegar até a uma vida inteira. Ou então uma meia
vida, quando a própria pessoa a tira voluntariamente, cansada do sofrimento
adjacente ao viver.
Mas o vazio não perdoa. Não faz
nada para além de te cansar. Porque vazia, não há nada que eu queira fazer, nem
reviver, nem morrer. Os dias passam, lentamente, enquanto eu assisto aos
corações que batem por algo mais, à minha volta. Muitos desses acabam por
morrer também. E é preciso ter um coração morto para reconhecer outro. Então,
para que serve o vazio? Não será de certeza um mecanismo de defesa, porque até
a dor dói menos que a dormência.
