segunda-feira, 2 de junho de 2025

Que merda...

Os meus pensamentos parecem nuvens. Sinto uma enorme mancha branca a deturpá-los, a mesclá-los com ruído de fundo. Não sei onde comecei, nem onde quis ir mesmo. O início deu-se quando as coisas faziam um pouco mais de sentido, mas agora não sinto mais isso. Onde é suposto chegar? Será que andei demasiado tempo à deriva, em modo stand-by e agora não sei qual é o meu rumo? Dirigi este carro sem direção, colinas acima, montes abaixo sem sequer saber para onde ia? E agora, pergunto-me eu? 

Talvez tivesse feito mais sentido há 1 mês atrás, em que sentia que a vida me sorria e que tudo valeria a pena. Mas o luto faz destas coisas. Nunca pensei vir a sentir a dor que sinto. A imensidão do buraco negro que se tornou o meu coração. É suposto saber para onde ir? Realmente importa depois de o perder? Só fazia sentido mudar, fosse de sítio, fosse de circunstância, porque ele permanecia igual, comigo, para todo o lado, no curso de 9 longos anos, agora demasiado curtos. Ele já não está mais comigo. Não o posso abraçar com toda a força num dia em que tanto preciso. Não posso chorar no seu pelo, encostar a minha testa na dele. Toda a gente me diz "arranja outro, substitui, vais ver que te sentes melhor". Que pena que sinto destas pessoas, que nunca sentiram o amor que ele me deu. Amor esse, insubstituível em todos os níveis. Nunca, e digo nunca, será possível trocar por outro. Como se de um peluche usado se tratasse. Ninguém sentiu a dor que eu senti quando percebi que aquele tinha sido o seu último batimento cardíaco. Ninguém me amparou quando eu percebi que o olhar dele se tinha ido. Ninguém me abraçou enquanto eu o abracei desesperada, sabendo que o seu pequeno corpo nos meus braços já não tinha vida. Esta dor não tem fim. Não sinto justiça no facto de ter que continuar como se nada fosse. Não chego a casa para ele. A minha cabeça por vezes prega-me partidas e relembra-me que o barulho que ouvi na sala só pode ser ele. E, depois de me levantar para descobrir, volto a sofrer com a realização de que isso não é possível. Que merda de realização. Fiz tudo o que pude, eu sei que sim. Mas a puta da vida não é justa e levou-te de mim, da maneira mais cruel possível. Não merecias um fim tão sofrido, depois de anos de amor e carinho, de te dar tudo o que soube. 

Portanto pergunto-me: como seguir em frente depois de um buraco tão grande em mim? Buraco esse que mais ninguém parece entender?

Por mais que queira estar bem, o meu corpo desmente-me. O sono não chega, a comida não cai bem, nem se digere bem. As cólicas, o desregular de todos os padrões corporais. O meu corpo sabe, sabe que sofre profundamente, a um nível que nunca o senti sofrer. Não é só mais um homem na minha vida, uma amizade arruinada. É tão mais que isso, é um amor incondicional que não sei trabalhar agora que desapareceu. E agora? Não há terapia que me faça sentir compreendida, não há conversa com alguém querido que me faça sentir mais leve. Tudo dói, nada resolve. Que injusto! Não sei qual será o intuito de tanto obstáculo na vida, só espero que um dia tenha tido o seu propósito. Porque hoje, só dói...