A grande Cidade capital. Lisboa. Aqui tantas pessoas passam ao meu lado na rua. Tantas vezes tenho eu de me desviar para não ser entroncada por um ombro alheio que bem podia ter sido desviado por hábitos de boa educação. Tantas pessoas, e passam todas a correr, numa imensa correria para estar num sítio para ao qual nunca chegam a tempo. As que andam devagar, como eu, absorvem este tolo panorama de demasiado de tudo. Demasiadas luzes, brilhantes, até sufocantes, cegantes, nunca benvindas. E o barulho? Todo o santo dia, apitos de buzinas, taxistas revoltados, discussões na rua, o ocasional bêbado que se acha cantor de ópera às três da manhã. Demasiados cheiros, dia e noite. Urina, fritos do restaurante chinês da esquina, bolor, humidade.
Sinto-me revoltada com todos estes assaltos aos meus sentidos sem nunca terem pedido permissão. O pó, que está absolutamente em todo lado, voa e atinge-me os olhos sempre que saio de casa. Entre meia cegueira e olhos molhados, alguém se encavaca na minha direção, naquela rapidez toda do costume, e me tira o equilíbrio, levando-me o ombro à frente. Ainda tem a indecência de deixar para trás um comentário mal-humorado, que sinceramente vai com o vento e ao qual já me habituei há muito. Finalmente abro melhor os olhos, com dor, e as luzes lançam-me outra facada na vista que já nem queria ver por não ter descansado a noite toda. Resta-me o nariz que sente os fumos dos tubos de escape e os cheiros de todos os materiais de construção. Sim, porque por onde quer que se vá, há algo em construção durante meses a fio.
Só para piorar, perde-se uma vida no trânsito. Onde o carro sobrevoa o caminho em cinco minutos, após o café da manhã de toda a gente, que é sempre à mesma hora, o mesmo carro demora meia hora, num pára-arranca repetitivo e comedor de combustível, que por si só já é absurdamente mais caro nesta bela cidade. E estacioná-lo? Sim, porque podes ter carro mas é muito improvável que tenhas garagem e onde tinhas lugar antigamente, estes novos popós XPTO multiplicaram-se como as mães e o teu pequeno boguinhas já não cabe em lado nenhum. Isto ainda aumenta cerca de vinte minutos ao teu dia stressante que pouco te deu em troca.
Estou revoltada com Lisboa, que me virou as costas, tirou-me a calma e a alma e deixou-me de rastos, sem esperança de melhorias. A minha Lisboa de há 2 anos atrás mentiu-me. Fingiu-se de boa rapariga, deu-me os encantos da lua de mel e, quando as discussões começaram, deixou-me sozinha.
E, como nenhum mal vem só, que felicidade me resta na terra natal, onde todos sofrem sozinhos e se deprimem entre quatro paredes, enquanto eu permaneço aqui a fazer o mesmo?
Porra, o que vale é que a minha Enfermagem está muito melhor não é?