terça-feira, 24 de outubro de 2017

Que raiva, Lisboa!

A grande Cidade capital. Lisboa. Aqui tantas pessoas passam ao meu lado na rua. Tantas vezes tenho eu de me desviar para não ser entroncada por um ombro alheio que bem podia ter sido desviado por hábitos de boa educação. Tantas pessoas, e passam todas a correr, numa imensa correria para estar num sítio para ao qual nunca chegam a tempo. As que andam devagar, como eu, absorvem este tolo panorama de demasiado de tudo. Demasiadas luzes, brilhantes, até sufocantes, cegantes, nunca benvindas. E o barulho? Todo o santo dia, apitos de buzinas, taxistas revoltados, discussões na rua, o ocasional bêbado que se acha cantor de ópera às três da manhã. Demasiados cheiros, dia e noite. Urina, fritos do restaurante chinês da esquina, bolor, humidade. 
Sinto-me revoltada com todos estes assaltos aos meus sentidos sem nunca terem pedido permissão. O pó, que está absolutamente em todo lado, voa e atinge-me os olhos sempre que saio de casa. Entre meia cegueira e olhos molhados, alguém se encavaca na minha direção, naquela rapidez toda do costume, e me tira o equilíbrio, levando-me o ombro à frente. Ainda tem a indecência de deixar para trás um comentário mal-humorado, que sinceramente vai com o vento e ao qual já me habituei há muito. Finalmente abro melhor os olhos, com dor, e as luzes lançam-me outra facada na vista que já nem queria ver por não ter descansado a noite toda. Resta-me o nariz que sente os fumos dos tubos de escape e os cheiros de todos os materiais de construção. Sim, porque por onde quer que se vá, há algo em construção durante meses a fio. 
Só para piorar, perde-se uma vida no trânsito. Onde o carro sobrevoa o caminho em cinco minutos, após o café da manhã de toda a gente, que é sempre à mesma hora, o mesmo carro demora meia hora, num pára-arranca repetitivo e comedor de combustível, que por si só já é absurdamente mais caro nesta bela cidade. E estacioná-lo? Sim, porque podes ter carro mas é muito improvável que tenhas garagem e onde tinhas lugar antigamente, estes novos popós XPTO multiplicaram-se como as mães e o teu pequeno boguinhas já não cabe em lado nenhum. Isto ainda aumenta cerca de vinte minutos ao teu dia stressante que pouco te deu em troca.
Estou revoltada com Lisboa, que me virou as costas, tirou-me a calma e a alma e deixou-me de rastos, sem esperança de melhorias. A minha Lisboa de há 2 anos atrás mentiu-me. Fingiu-se de boa rapariga, deu-me os encantos da lua de mel e, quando as discussões começaram, deixou-me sozinha. 
E, como nenhum mal vem só, que felicidade me resta na terra natal, onde todos sofrem sozinhos e se deprimem entre quatro paredes, enquanto eu permaneço aqui a fazer o mesmo?
Porra, o que vale é que a minha Enfermagem está muito melhor não é?

sábado, 2 de setembro de 2017

Funeral das aminimigas

Tenho evitado por tudo o que em mim existe escrever sobre esta porta que fechei na minha mente há 2 meses atrás. Evito por medo de trazer ao de cima o que me preocupa mais nestes pensamentos infelizes. 
Finalmente ganhei a coragem que achei nunca vir a ter e deixei para trás o drama que me apoquentava há tanto tempo incorporado na forma de duas pessoas. O drama da incompreensão e o sentimento de não ser suficiente nunca. O drama que não precisava na minha vida e que me derrubava de volta ao chão quando recebia uma mão para me erguer da miséria. E sabes que mais? Que porra de alívio! Sinto-me finalmente eu, algo que nunca esperei que retornasse. Hoje penso em como fui estúpida nos últimos 3 anos, em como não me reconhecia em mim mesma, em como me olhava ao espelho e via uma Catarina que tanto tinha mudado sem sequer ter dado dar conta. Quem era esta miúda que não sabia o que era ter pessoas com quem contar? Que não fazia a mínima ideia de que um encontro entre duas pessoas serve para voltar a casa de espírito mais leve e não naquele turbilhão de desilusões e cansaço? 
Quando finalmente gritei, exasperada e revoltada, a minha indignação contra quem me deixava nesse estado de insegurança, senti-me muito mal, não vou mentir. Parecia o término de um namoro de 3 anos, onde partilhámos demasiadas coisas para tão cedo esquecer as memórias. E equiparo o fim de uma amizade tal como o fim de uma relação amorosa: primeiro choro, choro muito; acho que a culpa é minha, que fui quem estragou tudo e que queria voltar se a oportunidade assim ocorresse; depois sinto saudades, apesar de a distância e o tempo melhorarem a auto-culpa que a mim me dava, sinto que é difícil ocupar o espaço dessa pessoa; porém, mais tarde, começo a ver os defeitos que inicialmente tão bem tolerava e que agora odeio de morte, culpo-a por tudo e chamo-lhe todo o tipo de nomes; por fim, atinjo o meu nível de nirvana em relação a essa pessoa, largo todas as frustrações que ela em mim colocou e distancio-me por completo; é nesta etapa que sei que essa pessoa já não me magoa, nem nunca virá a fazer parte da minha vida novamente. Porque ao longo destes 2 meses, eu fiz-lhe uma cerimónia fúnebre, comigo presente e sem direito a flores. Para mim chega, porque pessoas que conseguem fazer-me sentir pior do que eu me faço a mim mesma não merecem um lugar sentado na minha plateia que é a vida.
Adeus, não serás lembrada.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Amor Maior"

Sinto um peso na consciência. Não um peso de culpa, porque sei que não a sinto. Mas um peso sim, como um pé de chumbo, que me pisa o peito para me manter presa ao chão. 
Tu és o culpado. Como muitos outros, admito. Talvez o problema seja até comigo, que transporto comigo o chumbo sem sequer dar conta. 
Queria de ti carinho, compreensão. Algo me diz que te peço muito. Exijo tanto e retorno com quase nada. Que hipócrita. Mas, ao mesmo tempo, não sei ser diferente. Sou fria, exigente, mal humorada e anti-criticismo. Tantos defeitos numa só pessoa? Sim, enfim... Uma pessoa marcada pelo tempo não é a mesma. Outrora doce, excelente ouvinte de todas as piadas secas e sorriso TV em todas as ocasiões, hoje sou outra. Mesmo assim, não acho que seja uma mudança má. 
Porém, tu odeias. Tu gostas do romantismo e palavras melosas, dos telefonemas inesperados e mensagens tipo testamento às altas da noite. Mas querido, eu mudei. Contigo, por ti, por causa de ti. Eu mudo tão frequentemente em adaptação ao meu mundo que já nem me conheço. Sinto que sou uma adolescente, a perguntar às paredes quem sou. 
Mas querido, tu viste o melhor de mim. Só que todas as moedas têm duas faces, viste a coroa, agora dá de frente com a cara, que não é tão amigável ou sorridente assim, não como pensavas pelo menos.
Sabes o que chamo a isto? A evolução duma relação entre duas pessoas. Não é tudo mel, romance e flores. Somos dois seres humanos que se revoltam com a vida de vez em quando. Somos duas pessoas que por vezes discordam. E principalmente, não somos a mesma pessoa. Claro que isso resulta em conflito nalguns dias. Eu sou difícil, admito. E tu igual. Ambos teimosos, chatos, por vezes mesquinhos e desligados. Se calhar até somos mais parecidos do que pensávamos. Atraímo-nos um pelo outro pelo bom que havia em ambos, mas curioso como não nos abandonamos pelo mau. Não sei como, nem sei como explicar. Há uma segurança que existe, sem nunca ter sido discutida ou implementada. Simplesmente está lá. E por mais que os ressentimentos aflorem na relação, o cinto de segurança mantém-nos dentro deste carro no qual decidimos entrar há 2 anos atrás.
Eu sei que me odeias um bocadinho. Vá, vou admitir que até percebo. Mas espero que o amor seja maior. Maior que tudo e todos. Eu sei, porque falo por mim...